
No palco com Damião: sonhos podem se tornar realidade
Sexta feira passada, dia 23 de janeiro de 2009, foi uma data histórica para a música brasileira.
Claro que não vai ser lembrada assim na grande imprensa, afinal não houve show de nenhum medalhão ou queridinho do momento. Mas em Santo André, na Grande São Paulo, fãs da música alternativa, underground, marginal, experimental ou como quer que se denomine tiveram a oportunidade única de assistir a um show que poucos imaginavam que aconteceria. Há um ou 2 anos eu mesmo teria dificuldade em imaginar, embora sonhasse.
Assim, nesse momento em que o mundo se torna o Planeta Obama – aliás ótimo nome para um novo disco – peço emprestado o slogan de campanha para o título desse longo relato de um fã que tocou ao lado do ídolo.
Primeiros Contatos
Tudo começou há uns 2 anos, com a idéia de fazer um documentário sobre Damião. Uma coisa leva à outra e o SESC propôs chamá-lo para um show dentro da série sobre Contracultura. Só que Damião é extremamente difícil e instável, e criou todo tipo de obstáculo para participar do evento. No fundo, medo de encarar uma apresentação talvez maior do que tudo o que ele já fez. Acabou não acontecendo.
Passou o tempo, e o SESC fez nova tentativa aproveitando a série sobre o profeta Gentileza. Novas dificuldades, mas dessa vez ele aceita. Porém tudo era muito incerto: havia no ar uma suspeita de que ele pudesse simplesmente se recusar quando chegasse a hora.
Nesse espírito passamos os meses que antecederam o show. Enquanto o pessoal do documentário tratava do transporte e hospedagem – Damião descartou categoricamente o transporte aéreo – íamos ensaiando para a possibilidade, ainda incerta, de subir ao palco para ser a banda damiônica. Incerta porque não sabíamos sequer se ele aceitaria algo mais que o próprio violão. O plano incluía a possibilidade de trazer Damião na véspera, para conhecer o estúdio e talvez gravar.
Empreitada Difícil
Nada feito, era só no dia mesmo e olhe lá. Na manhã do dia 23, chego ao estúdio Arbória e fico sabendo que Damião já estava no hotel, mas se recusava a sair do quarto até a hora do show. O pessoal que trouxe ele descreveu a dificuldade da operação: Damião repetia incessantemente que era muita responsabilidade, que iam botar ele numa fria, que não era músico, etc. Fomos lá com a missão de trazê-lo para um rápido ensaio pelo menos.
Primeiro sucesso do dia: ele se acalmou ao reconhecer os dois fãs que lhe mostraram o site há 5 anos, e aceitou ir conosco no carro. Ah, me chamou novamente de judeu, claro… E finalmente conheci o lendário violão, com cordas de baixo, totalmente empenado e exibindo um acabamento…damiônico.
Lá chegando, ainda muito inseguro, soltou a voz por alguns minutos, reclamou outros tantos e acabamos fazendo um ensaio curto, pois precisávamos estar no SESC às 15:00h para a passagem de som. Ninguém nem almoçou, só correria.
Uma vez no SESC, equipamento montado, vamos ao camarim aguardar a passagem de som. Conversar com Damião é uma experiência fisicamente extenuante. Ele fala torrencialmente sobre tudo. Reclamava sem parar e elogiava Hitler, Maluf, a Colômbia. Enquanto falava era filmado o tempo todo para o documentário. De vez em quando engatava umas frases faladas e cantadas no dialeto para ilustrar o que queria dizer. Ele reclamava que não lembrava mais das letras, mas era só ajudar um pouco e ele declamava letras inteiras no meio da conversa. E mais trechos no dialeto. Revelou uma preocupação em não ofender o público com certas letras.
A passagem de som mostrou que era só subir ao palco e tudo mudava. Cantou de forma segura alguns trechos e de certa forma isso o deixou mais relaxado. Agora era só esperar. Ouvindo Damião dissertar sobre tudo, claro.
Planeta Lamma ao vivo
Às 20:00h subimos ao palco. O anunciante, vestido como Gentileza, faz uma breve apresentação e Damião começa sozinho, acústico. Saúda o público e ataca no dialeto. Detalhe: casa cheia. Essa era uma das preocupações dele: será que vem alguém? Confesso que eu mesmo tinha essa dúvida dada a pouca repercussão do anúncio do show nas comunidades do Orkut. Que nada, a lanchonete estava tomada.
Ao fim do acústico de abertura, chuva de aplausos e a banda entra. Baixo, bateria, sax, didgeridoo de tubo de cartolina, viola caipira com distorção, marimba, pianola Hering, tambores de bobina industrial, pedaltron. E Damião Experiença. O regente, compositor e arranjador não decepcionou: passou por vários clássicos do seu pensamento, como Cachorro (Commando Planeta Lamma) e sua tradicional apologia à mulher lésbica, no que aliás arrancou aplausos bastante entusiasmados de uma parte da platéia feminina. Cavalheiro, se desculpou várias vezes por algumas letras. Na última música agradeceu a presença de todos e foi ovacionado, tanto que voltamos para um rápido bis. Com o polegar machucado, encerrou o bis rapidamente e foi ainda mais aplaudido.
Terminada a função, Damião desfrutou plenamente o reconhecimento que tanto merecia, que nunca vinha e que ele jamais imaginou que viria. Tirou fotos, cumprimentou fãs, saboreou o momento. E nós também, por que não? Fãs com camisetas do Damião (eu preciso criar vergonha e fazer uma) vinham nos cumprimentar e até tirar fotos com a banda.
Só que havia mais: Walter Franco, que tocaria em seguida, já havia visitado o camarim durante a tarde para conhecer Damião e propor que ambos subissem ao palco juntos no final. Em uma das músicas tocadas por Diogo (filho de Walter) Damião foi chamado e cantou junto, já sem o violão. Ao final, subimos todos ao palco para uma última música.
E assim se passou um dia que vai ficar na memória. Um dia cansativo mas vivido plenamente. Foram sete anos desde o lançamento do Portão do Daminhão. Fica o sentimento de dever cumprido, sonho realizado e de que valeu o esforço. Cada letra de jornal recortada e escaneada. Cada contato feito via email ou pessoalmente. Cada faixa ripada dos LPs e disponibilizada para download. Ver Damião citar o endereço do site e dizer que “pode baixar tudo de graça” para cada pessoa a quem é apresentado é algo que não tem preço. Sei que essa analogia está meio desgastada pelo uso constante por vigaristas pentecostais, mas esse show foi a colheita farta do que foi semeado.
Veja a resenha do show no Vida Digitao, pelo próprio pai do pedaltron, instrumento que emana microfonias processadas por pedais de distorção e que arrancou elogios de alguns presentes.
Infelizmente não consegui levar uma câmera e só tenho alguns registro feitos com celular, como o que ilustra este texto. Mas o show foi registrado em áudio e vídeo e em breve deveremos publicar mais material. Quem foi ao show e tiver fotos, áudio ou vídeo e quiser nos enviar, entre em contato com planetalamma@damiaoexperienca.net
Atualização: uma fã publicou em seu blog um vídeo que mostra o momento em que Damião e Walter Franco dividem o palco.
Hamalai !
Que inveja… infelizmente fiquei preso no trânsito.
Fica a esperança de que esse tipo de evento se repita. Disseram que iriam lançar esse show em DVD. Espero que aconteça!
Hamalai!
Nossa senhora! que coisa incrível! damião e walter franco. isto é primeiro de abril antecipado? meus parabéns.
daminhao forever !! autenticidade e arte a flor da pele!!!!!