Todos os olhos (Tom Zé) – A capa que foi sem nunca ter sido

Cai um mito. Na verdade, já caiu há muito tempo, mas ainda persiste por aí. Até uns dias atrás eu também acreditava. Acabei de descobrir e não posso deixar de divulgar.

Trata-se da verdade sobre a histórica capa de Todos os Olhos (1973), quarto disco de Tom Zé.

 

Todos os Olhos (Tom Zé)

 

A ideia da capa foi sugerida a Tom Zé por Décio Pignatari, poeta vanguardista e amigo do músico. A ideia era afrontar o governo militar e driblar a censura. E qual era essa ideia? Simples: a capa – que deveria aparentar um olho – seria na verdade uma bola de gude sobre um cu, também conhecido como ânus. É o que parece, mas não é o que foi feito.

Na verdade, quase foi. A foto chegou a ser feita, mas o resultado final ficou óbvio demais para enganar os censores. A solução encontrada foi fotografar a bola de gude nos lábios da mesma modelo que, apertados, lembram bem a superfície em que a bola deveria repousar. Eis que o cu que deveria imitar um olho se torna uma boca que imita o cu. E ambos remetem ao olho.

Deu tão certo que enganou o mundo inteiro, inclusive muitos blogs e leitores que, mesmo depois de informados sobre a verdadeira história, continuam afirmando ser a capa aquilo que não é.

Enganou inclusive o próprio Tom Zé! Durante muito tempo ele perpetuou o mito, até ser informado da verdade sobre a capa. Deu risada:

Hahaha! Então me enganaram esse tempo todo! F.d.p., me enganaram! Hahaha!

O mito foi desvendado em uma reportagem da revista Carta Capital, ao que parece de 2005.  A história da complicada sessão de fotos com o fotógrafo Reinaldo Moraes e sua namorada, da reação de Tom Zé ao descobrir a verdade e da recusa veemente de Décio Pignatari em falar hoje sobre o assunto pode ser lida na íntegra no Substantivo Plural.

No fim, a capa de Todos os Olhos deu mais certo do que se esperava: parece um olho, que parece um cu, que na verdade é uma boca, que parece um cu, que lembra um olho.

Dentro da capa, existe um disco

OK, a história da capa é legal, eu adoro capas, mas já deu o que tinha que dar. Recomendo que se faça com o disco aquilo que é o seu propósito. Não deixe de ouvir, porque ele não merece ser lembrado apenas pela capa. Pode ser avistado vagando por blogs de música como o Mopho Discos ou no Soulseek.

Não é exatamente uma audição fácil. Mesmo tendo um samba bem audível (Augusta, Angélica e Consolação) não tem aquelas melodiazinhas prontas para o rádio. É música experimental da melhor espécie. Ou seja, é estranho, não convencional, isento de fórmulas testadas e aprovadas. É um teste, um experimento de laboratório. Não por acaso vendeu pouco. O grande público não é dado a ciência.

Já vale a audição só por Complexo de Épico, a faixa que abre e encerra o disco (em versão estendida) e que dá uma senhora alfinetada nos medalhões da MPB que se levam a sério demais. Também não posso deixar de citar Brigitte Bardot, que lembra bastante Maria Bethânia, de Rogerio Skylab (o correto seria o inverso, mas fui conhecer Brigitte depois). Aliás, em Cu e Boca, Skylab sentencia: “Cu e Boca é tudo a mesma coisa”. Suspeito que ele ouviu bastante o disco.

E leia a resenha de Todos os Olhos no blog Música Estranha e Boa, descoberto por mim justamente quando pesquisava para este texto e já recomendado.

 

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3 Responses to Todos os olhos (Tom Zé) – A capa que foi sem nunca ter sido

  1. E aí cara!
    Muito legal seu post sobre o Todos os Olhos! Valeu por ter linkado pro meu blog!

    Um abraço!

  2. Pingback: Os 7 discos mais ouvidos | Blog do Ronaldo

  3. Ryan Dunn says:

    Ainda acho que isso aí é um toba! LOL

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