Show conceitual no centrão: sucesso de não-público

Há exatamente uma semana o Supersimetria tocaria na noite paulistana. O tempo verbal pode sugerir que o show não aconteceu, mas não é bem assim. Aconteceu, mesmo sem ter acontecido.

Chegamos ao Ocean Club às 21:00h. É complicado tentar descrever o local, a foto do camarim é bem mais eficiente nesse sentido:

Camarim
Me lembrou a música Secretária da Beira do Cais…

Nos sentimos o próprio Adelino Nascimento em começo de carreira. O palco tinha espelhos ao fundo e dois postes de pole-dancing. De uma escada em caracol descia-se a outros… ambientes, onde teriam lugar as performances. De lá, emanava um cheiro nauseabundo. Tenho quase certeza de que as formas nefastas e vampiros astrais moravam ali.

Nas laterais da platéia, mais sofás em padrão onça. Ao mesmo tempo, me senti no disco Anymalize, do KISS…

Em meio a tudo isso, começamos a montar o pedaltron e passar o som. Um dos técnicos se revelou profundo conhecedor de som, mencionando Sun Ra entre outros.

Pedaltron
Montado e pronto para a função

Montada a bateria e acertado o esquema da mesa de som, eis que o produtor do evento, relutante e desapontado, nos comunica que não haveria o evento. Por absoluta falta de público, tornava-se financeiramente inviável abrir a casa. Deixamos claro que compreendíamos perfeitamente a inviabilidade do negócio e, diante do inevitável, resolvemos fazer o primeiro som assim mesmo, um freezão com base de baixo e piano gravadas no Reason. Mandamos ver, e no meio do som, o proprietário da casa veio comunicar que estavam fechando. Mandamos um rápido blast-beat com sax suíno para encerrar, coisa rápida, de uns 30 segundos. O olhar do proprietário revelava que ele não era um apreciador do som extremo.

Enquanto desmontávamos a bateria e os pedais, a constatação: havíamos feito um show puramente conceitual. Para zero pessoas. Rob lembrou que nem mesmo quando era membro atuante da mais tosca cena punk paulista aconteceu de tocar para ninguém.

Fracasso? De forma alguma! Dentro da estética e dos valores supersimétricos, um completo êxito. Um salto quântico entre o fracasso de público e o sucesso de não-público.

Desmontado o cenário e guardados os instrumentos, decidimos cumprir uma demanda na noite paulistana, já que estávamos a poucos metros de distância: comer o consagrado pernil do Estadão, lotado em plena madrugada, como sempre.

Veja mais fotos no Flickr.

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2 Responses to Show conceitual no centrão: sucesso de não-público

  1. Poucos são os que conseguem concretizar o sucesso do não-público, e falo por experiência própria.
    John Cage também não agradou todo mundo com sua proposta, mas o importante é que existimos como uma alternativa sensata e coerente dentro da música, e fazemos porque é excelente estar no palco, mesmo no mais inóspito dos ambientes.
    E espero poder ver uma performance do Supersimetria qualquer hora destas….

  2. Ronaldo says:

    Se tudo der certo, 2010 verá mais shows do que 2009.

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