Meu primeiro contato com Rogério Skylab foi em 2002, durante um ensaio do Supersimetria. O baixista apresentou o então recém-gravado Skylab II Ao Vivo, até hoje o mais famoso álbum da série. Digna de nota era a faixa Jesus, de letra bastante peculiar. Depois de ouvir o disco inteiro concluí que todas as letras eram bastante peculiares. Ouvindo Naquela Noite me lembrei de já ter visto um cara meio excêntrico cantar aquilo … no Jô. Ainda não sabia da forte ligação entre ambos.
Acabei deixando de lado e só fui relembrar mais de 1 ano depois. Foi durante o recesso da banda. Um belo dia fui checar o email de contato do Portão do Daminhão – que ainda era pouco conhecido – e vi várias mensagens incluindo uma de… Skylab!
Naqueles dias o Portão ainda não aparecia na busca do Google. Nesse dia o Google resolveu indexar o site que ganhou visibilidade súbita e acessos de todo o planeta. Skylab viu e mandou o email parabenizando a iniciativa. Aquilo nos motivou não só a retomar a banda como acabou catalizando o processo que levou à criação da 2ª versão do Portão e à histórica viagem ao Planeta Lamma. Valeu, Sky!
Descobrindo o bancário – músico – escritor – cadáver
Eu já sabia que ele tinha um disco dedicado a Damião Experiença, o Skylab III. Mas ainda não conhecia o som e a obra propriamente ditos. Fui ao site oficial e lá mesmo achei um link para baixar a obra. Depois disso, foi aquele trabalho de sempre quando descubro uma banda boa: pesquisar, descobrir que é ou quem são. Nesse caso, não foi tão simples.
Descobri a dificuldade de tentar definir Rogério Skylab. Seria um escritor, poeta, músico? Ou seria apenas Rogério Tolomei Teixeira, o funcionário do Banco do Brasil que gerenciava uma carreira artística paralela nas madrugadas em claro e em fatias de tempo “roubadas ao trabalho”, como ele mesmo revela?
Descobri que ele faz música por compulsão. Que não se tornou músico para pegar a mulherada ou ficar rico, e sim porque era algo inevitável. Que compõe de forma mental, instantânea, alimentado por fragmentos do cotidiano, como uma carrocinha de cachorro-quente ou uma viagem de metrô. Que a ideia pode tomar vários rumos: virar música, soneto ou crônica. E que a loucura que ele capta nesses pedaços do dia-a-dia é siste(mate)maticamente transformada em som. Nada é acidental.

A série Skylab
Descobri que ele assumiu a identidade de cadáver disfarçado de músico, história contada na faixa Inferno, do volume III. Gosta de publicar a própria nota de falecimento e já “morreu” algumas vezes ao fim de shows, numa performance em que desaba no chão e lá permanece indefinidamente enquanto os roadies desmontam o equipamento, testando a capacidade de incredulidade dos que ficam na plateia para ver até onde vai. Não por acaso, é a capa do nono disco.
Descobri que é inútil tentar ofender ou criticar Skylab de forma gratuita: ele vai reciclar a agressão e devolvê-la recheada de notas e sons. É famoso o episódio em que um jornalista de Brasília escreveu que “Rogério Skylab desafina mais do que Herbert Vianna sem tutano”. Foi o que bastou para que Skylab pegasse o comentário e… transformasse em uma música! Trata-se de Herbert Vianna, que permanece como sobra de estúdio e pode ser apreciada em versão ao vivo na rádio do site.
Descobri que obras elevadas como Fátima Bernardes Experiência, Câncer no Cu e a supra-citada Herbert Vianna jamais verão a luz do dia como parte da discografia oficial porque Skylab não tem dinheiro para pagar advogado, embora não se furte de compor sobre figuras públicas. É a compulsão falando mais alto.
E por falar em figuras públicas, descobri o quanto a obra de um músico “alienado” pode ser infinitamente mais interessante do que bandinhas que querem mudar o mundo. Skylab prefere estrangular freiras, serrar a namorada e compor uma ode a um urubu do que fazer crítica social. Ainda bem!
Finalmente, descobri paralelos com o próprio Damião: obra centrada na própria imagem, e a evidente dificuldade em ser levado a sério. Dificuldade essa que ele conhece bem; tanto que o título de seu primeiro disco é Fora da Grei.

Fora da Grei: raro e só em vinil
Nesse ponto, entra Jô Soares. Alguém da produção do programa um dia apresentou um disco, ele gostou e chamou para entrevista. Era o início de uma série de entrevistas que passaram a fazer parte do processo de lançamento de cada disco. O problema é que o público do Jô é incapaz de fazer qualquer outra coisa a não ser rir. De qualquer coisa. E quando Skylab, durante a entrevista, anuncia compenetrado que vai executar a música Cadê meu pau?, a plateia amestrada cai no riso. Ele não gosta, preferia que tentassem absorver a música. Mas é pedir demais. Então ele se contenta com o que dá pra conseguir: a divulgação no Jô. Que não é pouca coisa.

Skylab e Jô Soares
Quase todas as entrevistas estão no canal de Skylab no YouTube. Lá ele fala sobre o Banco do Brasil, sobre a importância de ter um trabalho fixo além da arte, sobre seu sagrado horário das madrugadas e sobre a crucial questão da série Skylab.
A loucura matemática transformada em tradição musical
Ele sempre afirmou que a série Skylab seria limitada e que terminaria no décimo volume. Ao explicar o motivo, aponta as estrelas da MPB que prolongam carreiras desnecessariamente e cita a sabedoria de Pelé, que parou no auge. Todos protestam, querem mais.
Os discos de Skylab se tornaram uma tradição entre os que apreciam música não convencional. Além do disco, fazem parte do “protocolo” a entrevista no Jô e o show de lançamento no Centro Cultural São Paulo. Diga-se de passagem, São Paulo parece ter uma afinidade especial com sua obra, e ele faz questão de salientar isso. O problema é que Skylab deixou todo mundo mal acostumado e ninguém quer o fim da série. Mas ele é taxativo.
Isso não significa o fim do músico, que continua gravando. É apenas o fim da série Skylab. Confira os álbuns Skygirls, gravado com uma banda feminina e Rogério Skylab & Orquestra Zé Felipe, com o baixista do Zumbi do Mato.
O que já vem acontecendo é a maior ênfase na literatura: Sky tem um livro de sonetos (Debaixo das Rodas de um Automóvel) e o blog Godard City, onde publica muita coisa interessante e divaga sobre sua paixão arrebatadora, o Fluminense. Lá ele simulou a própria nota de falecimento por duas vezes, e lamentou a baixíssima repercussão.
O último suspiro do cadáver
Há 3 anos que moro a menos de 200 metros do Centro Cultural. Infelizmente vacilei e perdi o show de gravação do CD e DVD Skylab IX. Mas fui ao show de lançamento do DVD, em que ele cantou várias músicas dos outros projetos. Ver Skylab no palco é algo necessário, sem o qual o entendimento e a absorção da obra ficam incompletos.

Cena do DVD Skylab IX
Nos dias 11 e 12 de junho, Rogério Skylab pisa novamente no palco da Sala Adoniran Barbosa no Centro Cultural São Paulo para apresentar o derradeiro ato, Skylab X. Custa só 20 reais e é obrigatório para quem quiser entender minimamente a coisa toda.
Pra finalizar, duas sugestões:
1 – Se quiser experimentar Skylab, siga as mesmas recomendações que faço sobre Damião e música experimental de modo geral: esqueça as opiniões, ignore a mídia. O tom é sempre meio condescendente. No caso de Skylab, o rótulo carimbado em todos os artigos é trash, palavrinha fácil e famigerada que costuma habitar o teclado de jornalista preguiçoso. Ouça.
Só você pode concluir o que é Skylab.
2 – Se gostar do resultado, ponha a mão no bolso: discos, DVD e livro são vendidos depois do show e no site. Skylab não vê problema nos downloads, mas se há um artista que merece o investimento, é o Matador de Passarinho.
Porra, cara !!!!!
Supersimetria??????????????????????????????
Quanto prazer !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
O prazer é meu. Nos vemos no Centro Cultural!
Minha tristeza é não ter tido a oportunidade de vê-lo ao vivo, ainda.
Muito bom o texto!
Skylab é um artista que realmente merece o investimento, assino embaixo.
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Eu já mensionei uma vez no meu face e repito: Eu gostei muito do que você escreveu, exceto um pequeno detalhe que se você realmente conhecer a minha estética, saberá o que é…