Sônia Rocha, verdadeira diva da MPB

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Cesse tudo o que as supostas divas da MPB cantam, que uma diva mais alta se alevanta, de microfone em punho e teclado programado.

Maria Rita, mãe da Maria Rita, Zélias, Anas Carolinas, são todas estrelas de menor grandeza quando comparadas àquela que, por direito, merece estar sentada no trono da MPB, ao lado de Adelino Nascimento. Falo de Sônia Rocha.

Nascida em Miracema, RJ, Sônia compõe desde 1969, quando participou do Quarto Festival Internacional, com boa classificação. Estudou canto e voltou a compor em 1977. Lançou o primeiro CD – “Feliz” – em 1998. De lá para cá, não parou mais, lançando CDs de forma quase ininterrupta.  O último é de 2006.

Só os ritmos de teclado salvam o planeta

Sônia encarna à perfeição o slogan da Nike. Vai lá e faz. Faz exatamente o que a grande maioria não faria nem sob tortura: soltar a voz. O fato de sair freqüentemente da afinação parece não ter a menor importância. João Gilberto que se preocupe com isso.

Quantos podem ostentar a condição de criadores de um estilo? Sônia pode. Derrubou, no canto, as mesmas barreiras que Adelino na gramática. Suas armas são um romantismo quase obsessivo, a paixão pelo próprio planeta (expressa em peças que exaltam Paris, Lisboa, Buenos Aires, Rio, Itália, Angola e Moscou) e os ritmos pré-programados de teclado, não por acaso outra semelhança com o finado maestro da verdadeira MPB.

Aliás, saiba que o mundo vai ser dominado pelos teclado Casio e Yamaha. Zezo, O Príncipe dos Teclados, já está no vigésimo volume e ganha muito mais do que você, sem ter que gerar sinergia nem usar gravata. Você mesmo pode começar uma carreira musical hoje. Que tal gravar 14 tangos diferentes com o mesmo ritmo?

O grande sucesso é exatamente a primeira faixa do primeiro disco: Leonardo Da Vinci, também conhecida como Belo Leo, um opus que exalta os feitos do arquiteto-pintor-inventor-escultor. Virou hit, ganhou versões remixadas e foi tema de um comercial da Oi, estrelado pela própria diva.

Feliz

Isso não quer dizer que as demais composições tenham menos valor. Há um pouco de tudo: cirandas, sambas, tangos, preces, fados, ritmos latinos e árabes, um vasto sortimento de canções românticas e uma interpretação da Ave Maria.

No disco Honras ao Gênio – Leonardo da Vinci (2005) ela retoma a homenagem na faixa Solidão do Gênio. Também digna de nota é Tributo Aos Roqueiros.

O disco Samba (2001) é sem dúvida o que de melhor o gênero produziu até hoje. Uma faixa imperdível é Samba do Turista, em que ela desdenha do gringo que tenta sambar, convidando-o a admirar “uma raça reinando com samba no pé”.

Samba

Damionismo

Além de Adelino Nascimento, há um evidente paralelismo entre Sônia e Damião Experiença. Senão vejamos:

  • Elevado volume de produção musical: ela começou tarde, mas a manter o ritmo de 1 a 2 novos álbuns por ano, logo chegará à primeira dúzia. Essa freqüência de 1 a 2 por ano lembra também Jandek.
  • Fixação por figuras históricas e lugares: Damião tinha Fidel, Isabelita Perón, Cuba e Moscou. Sônia tem Leonardo, Sócrates e diversas cidades.
  • Tango: Sônia possui um álbum no estilo. Damião tem 2 faixas de tango – sendo uma delas um blues, não pergunte – além de referenciar o estilo em outras letras (tango de Havana) e na fixação por Isabelita Peron.
  • A própria iniciativa de gravar e publicar o próprio material, contra todas as expectativas musicais reinantes.

Mas talvez o aspecto mais damiônico de Sônia seja mesmo o site oficial. Mantido em uma condição quase pré-internet, no mesmo endereço do Geocities, com letras vermelhas sobre fundo azul, é quase ilegível. De fato, é necessário selecionar o texto para mudar o fundo e tornar a leitura possível. A discografia está desatualizada, o que nos permite concluir que o site está abandonado. Ou talvez não esteja.

Tão distinta carreira só podia arrebanhar uma legião de fãs pela internet. Na comunidade do Orkut fãs trocam informações e pedem shows. Também está no LastFm, ainda sem músicas. No Blip.Fm começam a aparecer as primeiras faixas.

Recentemente ela subiu toda a sua obra para a Trama Virtual. É lá que você vai baixar as músicas assim que terminar de ler este artigo.

Felicidades à Diva

Não por acaso publico este texto hoje, 11 de Novembro. Trata-se do aniversário da diva, nascida em 1942. Tenho a honra de ter nascido exatamente no mesmo dia, 3 décadas mais tarde.

Abaixo, o primeiro vídeo oficial de Sônia, para a música Sinatra, do primeiro álbum. Repare no técnico da mesa dizendo “Sônia, gravando”. Outra semelhança com Damião.

Que estes 66 anos sejam só o começo de uma carreira longa e próspera.


Link do vídeo

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Como fidelizar o cliente nos semáforos

Não sou exatamente um fã de publicidade/publicitários. Pelo menos não da grande maioria que tenta vender felicidade embalada em potes de margarina e/ou assinar campanhas lastimáveis como a do Estadão e depois vir se justificar de forma patética fazendo spam de comentários nos blogs.

Mas gosto de uma publicidade bem feita e criativa de fato. Para ficar no meu conhecido universo cervejeiro, cito as campanhas da Stela Artois. Publicidade excelente, cerveja… bem, deixa pra lá.

Semana passada tive a oportunidade de ver mais um exemplo de propaganda simples porém eficiente. Em São Paulo é comum encontrar vendedores de bala nos semáforos, que penduram um pacote com algumas balas no retrovisor assim que o sinal fecha. Quase sempre há no pacote um papel com uma frase, que varia entre um pedido de ajuda e votos de “Deus lhe pague”.

Estava minha mulher parada no semáforo, quando um vendedor de balas veio pendurar o pacote no retrovisor. Assim que ela leu a frase, imediatamente comprou as balas. O motivo? A frase:

Balas Arquimedes

Não sei se quem teve a idéia foi o vendedor ou se ele já recebe o pacote pronto, montado por outra pessoa. O fato é que foi uma demonstração inusitada de vida inteligente em um universo de “Deus te ajude”, “Jesus isso”, “Nossa Senhora aquilo”. Em meio a tantos entes imaginários, alguém teve a grandeza de citar um matemático da Grécia clássica, civilização da qual o nosso Ocidente é herdeiro direto.

Eis aí uma idéia simples e que dá resultado. Não acho que vá revolucionar o mercado de balas de semáforo, mas com certeza pode despertar a atenção de vários motoristas, que normalmente dedicam a essas balas a mais completa indiferença.

Eu, por exemplo, compraria sem pensar qualquer doce que contivesse uma citação de Homer Simpson.

Ah, as balas de café e melão são muito boas.

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Art Ensemble of Chicago no SESC

Este ano de 2008 foi prodigioso para os fãs brasileiros de free jazz. Se já não bastasse o massacre protagonizado por Peter Brötzmann, eis que o SESC Vila Mariana resolve trazer ninguém menos que Art Ensemble of Chicago. Ainda bem, porque neste caso a média de idade é elevada e um dos membros fundadores, Malachi Favors, já é falecido. Ou seja, não resta exatamente muito tempo para vê-los em ação.

Art Ensemble of Chicago

Tendo chegado cedo ao local e faltando mais de 2 horas para o show, decidimos fazer um aquecimento no Paralelo 12:27, bar próximo onde se serve algo chamado Cerveja, com C maiúsculo. Mais precisamente, chopp Eisenbahn. Após a comunhão do lúpulo, saímos à pé rumo ao SESC. Vejam: tinhamos acabado de tomar chopp de um nível que 99% dos brasileiros sequer sabem que existe e íamos assistir música do mesmo nível do chopp. Uma noite memorável.

Dessa vez fomos em uma horda de meia dúzia, sendo que um deles seria iniciado no free ao vivo.

Bengala, bateria, artrite, saxofone

Art Ensemble of Chicago é um dos remanescentes do free jazz, estilo que teve o seu auge há 4 décadas. Portanto, os músicos são todos sexagenários, o que faz com que o show tenha uma dinâmica mais… lenta, por assim dizer.

Assim que entraram no palco e se posicionaram, voltaram-se todos para o lado direito e assim permaneceram por quase um minuto. Na direção de Meca.

O baterista Don Moye entrou de bengala, e ao passar das congas para o kit de bateria, ia se arrastando vagarosamente. O que não o impediu de conduzir bastante bem o ritmo, alternando com momentos da mais pura quietude e contemplação (durante os solos dos colegas) e ataques pontilhistas diversos aos pratos e tons.

Don usava vestes africanas. Isso foi o máximo de caracterização usado no show. Não usou pintura tribal como antigamente. Também não foi trazido o show completo com dúzias de instrumentos musicais pouco convencionais. Isso fica reservado para os europeus. Para nós, ter o show aqui já está de bom tamanho.

O trompetista Leo Smith, músico convidado, lembrava o próprio Daminhão visualmente falando. Quando não tocava, agachava-se e ficava também ele em estado contemplativo.

O baixista Jaribu Shahid, como não poderia deixar de ser, rendeu-se várias vezes ao baixismo, fazendo incursões à dimensão própria dos que tocam o instrumento. Também executou um conjunto de sinos e sinos tibetanos.

Roscoe Mitchell. Aqui estamos falando de um dos grandes expoentes do saxofone e um dos sobreviventes do free jazz, tocou inclusive com Albert Ayler. Aos 68 anos, está em plena forma. Por várias vezes durante o show sentava-se em sua cadeira e assumia uma postura austera e alheia a tudo e a todos. Parecia cochilar. Em seguida, voltava e continuava.

Show No Mercy

Não, não estou me referindo ao clássico disco do Slayer, e sim a uma performance de Roscoe Mitchell que acabou sendo responsável por aquele momento já clássico dos shows de free, que eu chamo de a purificação da audiência.

Descrição do Panfleto

Como já expliquei na resenha do Brötzmann, muita gente vai esse tipo de show sem ter a menor idéia do que vai ouvir. Lêem as descrições do panfleto na bilheteria, sempre vagas, e acabam achando “cool”. Novamente eu insisto: basta 2 minutos de pesquisa no You Tube. Mas nem a esse trabalho se dão. Então, quando são confrontados com a realidade sonora, não agüentam. Ora, se não agüentam, bebam leite. Por que vieram?

Porque quase sempre o sujeito leva a namorada/acompanhante/escort ou sei lá o quê para tirar onda de “descolado”. Só o que consegue é fazer com que a mocinha tenha o trabalho de descolar o traseiro do assento e ir embora no meio da apresentação. Aconteceu ontem: um dos membros da nossa horda disse depois ter ouvido na fileira de trás a seguinte frase: “Eu te avisei que era assim”.

Roscoe, por sua vez, não teve qualquer misericórdia. Após um breve diálogo entre baixo e sax, ele começou um solo utilizando a técnica de respiração contínua (ou circular), que permite que o músico toque instrumentos de sopro sem pausas para inspirar. Ou seja, o sax literalmente não pára. A coisa durou mais de 10 minutos! Foi o suficiente para provocar um verdadeiro êxodo do lado esquerdo da platéia, uma dúzia de pessoas se retirando ao mesmo tempo.

Eu só ia acompanhando com a visão periférica e, claro, me divertindo. O nosso amigo que estava sendo iniciado no free ao vivo se espantou com esse fato e perguntou se as pessoas que saiam não sabiam o que tinham ido ouvir. Explicamos como funcionava.

Aliás, ele conseguiu realizar a proeza de dormir em uma parte da apresentação. Me lembrou o próprio Nelson Piquet no grid de largada.

Uma grande noite.

Abaixo, trecho de uma apresentação em Paris em 2001. Dá pra ter uma idéia do que é o tormento do sax em respiração circular. Para ouvir mais, visite o Last.FM.

Mais uma vez, só me resta desejar vida longa e barulhenta a essa nobre arte.


Link do Vídeo

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Universal Life Church – Sua ordenação a apenas um clique

Em um episódio recente dos Simpsons, Homer fica inconformado com a legalização de casamentos gays na cidade. Até descobrir que o reverendo Lovejoy se recusava a celebrar esses casamentos e que um pastor poderia faturar até 200 dólares por cerimônia. Então manda a célebre frase: “Gente, essas pessoas têm direitos. O direito de me comprar uma TV de 60 polegadas”. Corre ao computador e, em questão de segundos, é ordenado ministro via internet pela e-Piscopal Church, com direito a imprimir o colarinho.

A igreja retratada na cena existe de verdade. Trata-se da ULC – Universal Life Church, uma igreja americana fundada em 1959 por um reverendo pentecostal na garagem de casa, com base na Primeira Emenda da constituição do país, que garante a liberdade religiosa. Basicamente, a doutrina da ULC é a de que cada um é livre para escolher a religião que quiser e crer no que bem entender. Ou seja, qualquer um é aceito. Você é católico? Seja bem vindo. Evangélico? Judeu? Budista? Ambientalista dos Santos do Aquecimento Global dos Últimos Dias? A ULC te abraça. Ateu? Por que não? Muçulmanos são aceitos, mas suspeito que os Imãs e Ulemás não vão simpatizar com a idéia.

O único preceito da ULC é sintetizado na frase “Do only that which is right“. Ou seja, “faça apenas aquilo que é certo”. Um conceito amplo, abrangente, subjetivo, robusto, heterogêneo, distribuído, escalonável e transacional.

A ULC permite que qualquer um seja ordenado ministro gratuitamente via internet, bastando fornecer os dados pessoais e um email válido. Uma das principais utilidades desta ordenação é permitir que qualquer um possa celebrar casamentos de amigos ou parentes sem engordar os cofres de grandes igrejas. Também serve para uniões mais difíceis que muitos se recusariam a celebrar, como as do mesmo sexo no exemplo do Homer. Isso porque a legislação americana garante a todo sacerdote de uma religião registrada o direito de celebrar casamentos. E a ULC é uma religião registrada. Claro que já sofreu toda sorte de processos judiciais mas continua firme e forte.

Mas se é free, o que eles ganham com isso? Dinheiro, como bons americanos. A ordenação é gratuita, mas o novo ministro pode torrar seu cartão de crédito na ULC Store, comprando desde certificados até a indumentária de clérigo, passando por pacotes completos com livros de ritos, textos prontos para as cerimônias de núpcias e toda sorte de placas, cartazes e insígnias.

Título Religioso Customizado

Assim como a Renascer gerou a Bola de Neve Church, a ULC gerou uma ramificação, a Universal Life Church Monastery, que faz basicamente a mesma coisa. Na verdade é uma dissidência e os CEOs (sim, o título é esse mesmo) de ambas estão em constantes disputas judiciais.

Eu adorei o Monastery, porque eles têm um produto diferenciado: um certificado religioso genérico, onde você – o cliente – escolhe o título que desejar. Há um vasto leque de opções que vão de Minister of Rock ‘n Roll até Deusa, Santo ou Papa. Pena que não tem Minister of Beer ou Minister of Brewing, mas mesmo assim fiquei bastante interessado em Abbe (Abade) ou Minister of Music. Se não fosse cobrado eu pediria hoje mesmo.

Ah, eles também ordenam Cavaleiros Jedi. Será que ele foi ordenado lá?

Não acredito que uma ordenação dessas tenha validade jurídica no Brasil, mas acho que é só questão de tempo. Estamos em solo fértil para toda sorte de crendice, vide Cacique Cobra Coral, Paulo Coelho, Marxismo e similares. Para não falar em Pai Manoel.

Clique Djá !

OBS: Eu nem vou me dar ao trabalho de pedir a ordenação porque já me auto-ordenei Ministro em 2002 durante uma sessão de ensaios do Supersimetria.

OBS 2: Como quase toda notícia pitoresca ligada a religião, esta eu achei no Janer Cristaldo.

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Bósons e Hádrons na boca do povo

Nos idos de 2002, bem antes do LHC virar moda, eu já tomava contato com a física de partículas. Onde? Em um estúdio de gravação.

O próprio nome da banda onde toco – Supersimetria – foi retirado da física. Várias gravações foram e são batizadas com termos da área. Agora mesmo estamos mixando Ba-ion, um baião atômico gravado há 6 anos, onde grávitons, bósons e férmions convivem com triângulo, bumbo e guitarra. Em breve estará disponível para download no site oficial. Isso se eu conseguir realizar a proeza de aprender Flash e CSS, já que a designer que faria o site parou de responder emails e retornar ligações, aparentemente ofendida por algumas capas de discos…

Partículas de pelúcia e mais um apocalipse

Antes mesmo de ser ligado, o LHC já trouxe algo de bom: a popularização, ainda que temporária, de termos da física subatômica, principalmente os nomes das partículas. Entre os blogs só se fala em bósons, hádrons e outras. Já existem até partículas à venda na forma de brinquedos. Mas logo deve passar. A divulgação científica mesmo, de forma sistemática, ainda deixa muito a desejar por aqui.

Claro que, a reboque, vem o obscurantismo apocalíptico recheado de previsões de fim do mundo. Esse sim dá ibope. O que impressiona é que, dessa vez, não é o Jedi Romano que está capitaneando essa gritaria, e sim cientistas! Só posso imaginar que exista aí alguma intenção de alavancar carreiras estagnadas.

O fim do mundo já foi previsto tantas vezes que perde-se a conta. Nesta página contabilizaram 220 tentativas. Na verdade seriam 221, mas sendo a página um site bíblico eles obviamente excluem o transe lisérgico a revelação de (São) João.

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Jesus tem gosto de canela

Jesus é cor-de-rosa, tem gosto de canela e cravo e foi criado por um farmacêutico ateu e excomungado.

Não, eu não enlouqueci. O Jesus a que me refiro é um refrigerante. Quem já esteve em São Luis deve ter visto, por toda parte, uma bebida estranha, de um cor-de-rosa vivo, disponível em cada esquina. É o Guaraná Jesus, ou Cola Jesus, como costumam chamar por lá. É fabricado e vendido unicamente no Maranhão, sendo praticamente um símbolo do estado. Deveria fazer parte do brasão ou da bandeira.

Quando eu digo vendido, é vendido mesmo. Tanto quanto a Coca-Cola e mais que todos os refrigerantes da Ambev. Em qualquer restaurante você pode pedir “Me vê um Jesus” e o garçom entenderá na hora. É bem provável que muito maranhense, ao ouvir a palavra jesus, associe primeiro ao guaraná e depois ao galileu.

Guaraná Jesus

A história por trás do guaraná é interessantíssima. O criador foi o farmacêutico Jesus Norberto Gomes, que descobriu o guaraná por acidente, enquanto tentava sintetizar um remédio com ingredientes originários da Amazônia. Não bastasse isso, era ateu e foi excomungado pela Igreja Católica após surrar um padre. Um distinto cavalheiro, de feitos notáveis, sem dúvida.

Durante várias décadas a receita foi mantida em segredo pela família do nobre Jesus Gomes. Conta-se que Marlene Mattos – que é maranhense – tentou comprar a fórmula para lançar como Guaraná da Xuxa. Graças a Oxu e Orixá ela fracassou.

Alguns anos atrás, após várias investidas, a Coca-Cola finalmente comprou os direitos e é hoje a dona de Jesus. Sabendo que, se tocasse no orgulho do estado cairia em desgraça no feudo Sarney, a empresa tomou a sábia decisão de não mexer com o produto. Na verdade, o Guaraná Jesus sequer aparece no portfólio de produtos no site da Coca-Cola. É quase um produto marginal.

Detalhe para o slogan: “O Sonho Cor-de-Rosa”. Se Luiz Mott olhar essa lata, aí é que vai aumentar sua convicção sobre a orientação sexual de Jesus (o Galileu, não o farmacêutico).

Jesus em Lata

Bela história, mas e o sabor? Presta essa espécie de ki-suco com gás? Depende. Há quem deteste e há quem não passe sem. Vale experimentar pela curiosidade turístico-gastronômica, mas já aviso que é doce. Como filho do interior paulista criado à base de tubaína, eu sou fã de Jesus. Tanto do farmacêutico quanto do guaraná.

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O mundo perde Waldick Soriano

Waldick Soriano

Mais um ícone se vai.

Em 2007 perdemos Marinês, a dama do xaxado. Esse ano já registrou uma grande e prematura baixa, Adelino Nascimento. Agora, novamente o Brasil fica menos brega. Bem menos. Um câncer de próstata levou ninguém menos que Waldick Soriano. Essa perda é das grandes, estamos falando de um dos pilares da música brasileira.

Influência

Waldick era daqueles cantores que muita gente ouvia mas não admitia nem sob tortura. Isso devido ao cisma que, em algum ponto da história, tornou inaceitável para muitos o velho brega romântico. Fez-se uma bifurcação e era necessário escolher: o caminho estreito e refinado da mpb e adjacências ou o caminho largo do brega rasgado. E, exatamente como naquela outra situação de caminhos estreito e largo, quem escolheu o primeiro não admite que outros possam escolher o segundo.

Na época, a crítica padrão era a de que o brega apoiava a ditadura, ao não se opor à mesma. Já é lendária a resposta dada por Waldick à pergunta sobre por que não combateu a ditadura: Estava ocupado gravando e cantando, enfim, trabalhando. Owned! Esta e outras histórias estão no livro Eu Não Sou Cachorro, Não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar, leitura recomendada.

Eu já ouvia Falcão de longa data e Eu Não Sou Cachorro Não era tudo que conhecia de Waldick, devido à versão falcônica. Comecei a acompanhar mesmo a obra soriana já tarde, por volta de 2004, quando adquiri seu penúltimo disco, Minha Última Noite, lançado pela Gema e comprado em uma das minhas visitas à loja Mano Véio Mano Novo da Paulista. Ia ouvindo o disco no caminho para a faculdade, a moribunda FASP. Desnecessário dizer que se tornou influência instantânea.

Repercussão

Curioso foi ver a repercussão da morte. Saiu no Jornal Nacional, matéria até bem editada. Em um trecho, a repórter menciona que ele era rotulado de brega. Na VEJA.com, o termo brega é grafado entre aspas.

Vê-se que a grande imprensa ainda resiste aos fatos. O Brasil é brega por definição, e ter a música classificada como tal não é de forma alguma ser rotulado, eu encaro como uma comenda. O próprio Waldick não gostava do termo brega – preferia romântico – talvez bem mais pela conotação com que costuma ser usado do que pelo termo em si.

No Estadão, matéria surpreendentemente justa, destacando inclusive a “genialidade” do censor que barrou a música Tortura de Amor pelo título. A Folha foi apenas burocrática e sucinta, que isso de romantismo popular não é o perfil do jornal. O G1 – que entrevistou Waldick em 2007 – informa que Falcão foi incentivado pelo próprio Waldick a gravar I’m Not Dog No, a versão em inglês canônico, tradução literal feita palavra por palavra com o dicionário Inglês Sem Mestre da Ediouro. No próprio blog do pensador cearense, a justa homenagem ao amigo e ídolo. Finalmente, vale ler o depoimento de José Teles, crítico de música do Jornal do Commercio de Recife, que conta passagens curiosas da vida do astro de forma bem mais direta e contundente do que os corretos textos jornalísticos da imprensa do sul.

Aliás, falando no noticiário da grande imprensa, nota-se como é fácil ser portal. Basta repetir o que agências (Reuters) divulgam e pronto. Nesse caso, o negócio era dizer que Tortura de Amor teve uma “releitura” por Fagner. O Estadão se deu ao trabalho de pesquisar um pouco:

Uma vez liberada, a canção, um bolero composto em 1962, da melhor concepção de Waldick, tornou-se grande sucesso na voz do cantor. Depois ganhou releituras nas vozes de Nelson Gonçalves, Fagner, Fafá de Belém, Maria Creuza e o grupo português Clã, entre outros.

Engraçado. Por que será que quando um cantor regrava um brega ele faz uma “releitura”? O termo é regravação, amigos! O próprio Caetano regravou, por sinal mais de uma vez. Quanto ao enigmático “entre outros” da lista acima, trata-se de nomes do próprio brega, como o carioca Adilson Ramos.

Legado

O legado soriano é, em uma palavra, superlativo. Ele afirma ter gravado 84 discos, mas mesmo que fosse a metade, trata-se de um feito. Gravou, foi regravado, influenciou e influenciará.

Mais do que um cantor, Waldick é um estilo. Sua releitura (eu também posso, certo?) do paletó e gravata se tornou uma estética própria, a meio caminho entre um executivo da Paulista e Raimundo Soldado.

Nada poderia defini-lo melhor do que uma frase do próprio, dita ao amigo Falcão: “Quem é, é”.

¤ ¤ ¤

[Atualização]: A Folha noticiou o enterro e disponibilizou uma página com a discografia, obtida de um certo Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. São apenas 30 títulos. O curioso é que do penúltimo disco (1978) pula-se direto para o último em 2007. Nem sinal do nome Gema. O que seria, então, a imagem que abre esse post? Uma montagem minha?

Folha e Cravo Albin, favor abrir o navegador e digitar www.gemagravadora.com.br. Grato.

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Blog Day 2008: Lúpulo Edition

Dessa vez vou participar do Blog Day de forma temática: só blogs cervejísticos. Material de sobra pra quem quer se aprofundar nos caminhos de Marduk: muitas resenhas e a oportunidade de conhecer rótulos que você nem imaginava que existem.

Como sugestão, alguns dos blogs poderiam disponibilizar um link para assinatura do RSS. Sem o link, a única forma de descobrir o endereço do feed é usar a ferramenta de auto-descobrimento do software leitor, coisa que muita gente desconhece.

Prosit!

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Encarnação do Demônio: Josefel Zanatas vive!

Encarnação do Demônio

Quarenta anos.

Quase o tempo de uma ditadura cubana. Boa parte dos leitores desse blog não era nascida em 67. Nem mesmo o autor.

Duas semanas atrás eu e um seleto grupo de amigos nos dirigimos ao cinemark do Market Place para cumprir uma demanda. Para muita gente esse dia demorou vários anos, para mim – que só fui conhecer a obra há uns 5 anos – demorou menos. Para ele, 40 anos.

Finalmente José Mojica Marins concluiu sua trilogia, contando inclusive com verbas do governo do estado, afinal Pro Brasilia fiant eximia, certo?  Para a maioria, ele nunca passou de algo exótico e “trash”. Sendo brasileiro, claro que foi reconhecido apenas lá fora, elevado inclusive ao status de cult. Experimente contar aos colegas de trabalho que hoje à noite você vai ver o filme do Zé do Caixão no cinema. Vai receber olhares estranhos, como que dizendo: “Cara maluco esse”. Questão de opinião. Maluco, pra mim, é quem deixa de assistir a um filme apenas para satisfazer expectativas de escritório.

Não tendo o menor apreço pelo comportamento de manada, eu sempre soube apreciar o mojiquismo em toda a sua extensão, Doutor Bartolomeu incluso. Nos idos de 2003 fui apresentado aos 2 primeiros filmes da trilogia: À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, além de O Despertar da Besta. Foi grande a expectativa quando li a notícia de que o terceiro filme seria rodado.

Baratas, ganchos e a continuidade do sangue

Vamos direto ao ponto: Encarnação do Demônio é excelente. Claro que se você gosta de filmes “lindos” – descrição típica de dramas ao gosto do público feminino – talvez seja melhor evitar. Não que eu não considere várias cenas do filme como sendo lindas.

  • Pra começar, suspensão real.
  • Body Modification (a cena da boca sendo costurada pra valer, no Purgatório).
  • Crucificação.
  • Uma peculiar auto-antropofagia glútea.
  • Um rato ginecológico (sim, é exatamente isso que você está imaginando).
  • Uma das “candidatas” emerge do ventre de um legítimo cachaço suíno (o que pode ser mais black metal que isso?). A cena é real, sem truques.
  • Uma cena de sexo com chuva sangüínea que deixa a cena de Angel Heart no chinelo. Detalhe: Josefel caminha sobre o sangue.
  • Necrofilia.
  • E a já antológica cena das 3 mil baratas em um barril, onde Mojica enfia a cabeça da própria mulher. Hoje é sempre!

Em meio a esses cenários refinados, algumas participações ilustres. Zé Celso Martinez Corrêa interpreta um guia que conduz Josefel a um passeio pelo Purgatório. Nessa cena você descobre que o Purgatório é uma capa do Led Zeppelin (Houses of the Holy). Jesse Valadão é o policial com tapa-olho que, munido de fé em Santo Expedito, busca vingança contra o coveiro que o cegou. Expedito não ajudou: o personagem termina o filme empalado e o ator, morto. Há ainda o padre possesso que protagoniza a batalha final, gravada no Playcenter.

O que dizer da cena em que a mulher, prestes a acolher o rato supracitado, implora gritando “DEUS!”. Ao que o coveiro responde, austero: “Lamennnnnto, mas ele não foi convidado para a nossa fessssta”.

Ah, Mojica pode ter fama de maluco, mas não é bobo. O elenco de candidatas é exibido de forma generosa, ou em português claro: mulherada nua.

Outro detalhe bastante digno: baratas, aranhas, porco cachaço, ganchos, linha e agulha, rato. Tudo real, sem CGI.

Você deve estar se perguntando se Josefel conseguiu seu objetivo, gerar o filho da mulher perfeita, obtendo assim a imortalidade? Digamos que conseguiu muito mais do que isso.

Na sala (7, claro!) meia dúzia de pessoas, se tanto. Só os eleitos. Ao final da projeção, meia dúzia de aplausos. A unção foi plena.


Mojica no shopping: Sala 7, poltrona 7

Reparando uma injustiça

Talvez a cena  mais importante do filme seja a reparação de um sacrilégio que a censura obrigou Mojica a cometer em 67: na cena final de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, os queridos censores obrigaram o diretor a reescrever o texto. Na cena que foi ao ar, o coveiro se arrepende e reconhece a superioridade da cruz, do filho, do pai, aquela conversa toda. No original, ele blasfemaria e seria preso. Em Encarnação do Demônio, a injustiça foi reparada: através do recurso de flashback, a cena foi refeita, com fotografia da época e tudo, utilizando-se de um fã americano de Coffin Joe chamado Raymond Castille, que é quase um sósia do Mojica da época. Dito de outra maneira: perdeu, carolada!

Assista

Antes do filme tivemos o desgosto de ver o trailer de um novo filme de luta de rua (Never Back Down), um karatê kid moderno com trilha sonora de bandas Emo e rap, onde o cara tem que vencer o desafio, superar obstáculos e provar que é capaz, aquela bobagem previsível de sempre.

Você sempre vai ter duas opções:

  1. Continuar vendo apenas o cinemão ruim feito em linha de montagem, e sair da sala de projeção com a sensação de que poderia ter utilizado melhor aqueles 90 minutos da sua vida.
  2. Tentar um filme diferente de vez em quando pra ver como é.

Ao contrário do filme ruim do trailer, Mojica é o verdadeiro lutador, o sobrevivente. Sobreviveu à ditadura, que impediu que Encarnação fosse filmado na época, sobreviveu ao próprio país em que vive, à falta de recursos, à Santa Madre Igreja.

Vá ver. Nem que seja só para apreciar a mulherada. Se já estiver fora de cartaz, alugue ou baixe. Afinal, onde mais você teria a oportunidade de ver a cabeça de Jesse Valadão cravada em uma estaca?

Outras resenhas:

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Este blog apóia a campanha “Bono: pede pra sair”

Vejo no Whiplash uma nota muito interessante e promissora, falando sobre uma petição criada no site The Point pedindo a Bono Vox que se retire das causas sociais. Literalmente um pede pra sair. Diz a campanha:

As iniciativas filantrópicas de Bono são auto-indulgentes e produzem efeitos contrários ao que se espera … Os líderes da luta mundial contra a AIDS na África não pediram ao Bono que fosse seu porta-voz. É hora do Bono parar.

Eu apóio 100% essa petição.

Deu. Saturou. Ninguém agüenta mais. Já comentei no post sobre o Dia do Rock de como ele era chamado de Bozo Vox no show em São Paulo sempre que fazia o uso errado do microfone. Algo do tipo “cala a boca e canta”.

O cara foi sacaneado até pelos próprios colegas de banda no episódio em que participaram dos Simpsons. Aliás, na vida real quase que a banda acaba devido à paciência dos demais ter chegado ao limite.

Se ele tem uma necessidade compulsiva de querer salvar o mundo, que faça isso nas músicas. Faça outra Sunday Bloody Sunday ambientada em alguma favela carioca. Não vai mudar nada – música alguma vai – mas vai tornar o mundo melhor do que ele é hoje, com o cara desfilando de braços dados com chefes de estado e óculos escuros desnecessários – que mania é essa de pop stars de usar óculos de sol em lugar fechado que não seja uma mesa de poker?

Sugiro até um nome para uma campanha similar em português, com rima e tudo:

Bono, esquece a ONU

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