Delay

Delay

2003. Eu não estava brincando quando disse que a produção sonora desse ano foi elevada. E está longe de acabar.

Muitos instrumentos passaram pelo estúdio Arbória nesses 7 anos, alguns tiveram seu momento de glória e acabaram no lixo por engano. Nunca cometa o erro de presumir que uma faxineira sabe o que deve fazer. Dê instruções claras sobre o que pode e o que não pode ser jogado fora.

Um deles, porém, não apenas permanece até hoje como evoluiu de acessório de guitarra para uma categoria sonora com vida própria. Me refiro ao pedal de delay, aquele efeito que gera um som de eco. Para ter um exemplo prático basta sintonizar qualquer rádio AM. Aplicado com moderação, o delay cria um ambiente que lembra um grande auditório. Usado de forma desenfreada, passa a interferir no seu dia-a-dia e se incorpora ao seu estilo de vida.

Sem perceber, você passa a ouvir os mais diversos sons e se pega pensando em como isso soaria com delay. Depois de um certo tempo a questão não é mais se o delay cabe em determinado som, mas o quanto deve ser aplicado.

É claro que isso tudo só poderia resultar em um álbum: Delay é um trabalho solo de Rob Ranches, mentor da banda, mas nem por isso deixa de fazer parte da sonografia. Essa é a vantagem do Supersimetria: bandas do mainstream entram rapidamente em crise quando um membro decide fazer um disco solo. “Será que ele não está mais a fim de tocar?”, pensam os demais membros. Aqui a gente resolve de forma rápida e indolor: o disco solo entra para a discografia da banda e estamos conversados.

O álbum é completamente microfonal, para o deleite dos fãs do estilo. O delay puro marca presença em ReMiles, onde Miles Davis está tocando seu trompete placidamente quando é subitamente possuído pelo efeito e se desfaz no éter. Ouça e sinta o desconforto que isso causa. O delay tem essa propriedade: confundir a noção de tempo, gerando um desconforto no ouvinte.

Com o Sound Forge já é possível se iniciar nessa arte. Quem quiser se aprofundar deve adquirir o pedal Digital Delay da BOSS e/ou uma mesa de som.  Eu recomendo.

Baixe e ouça.

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I Am A Craft Brewer – O orgulho cervejeiro

Quem é fã de cerveja talvez já conheça, mas faço questão de divulgar. Trata-se de um vídeo que foi criado para mostrar o espírito de colaboração entre as micro-cervejarias americanas. Foi apresentado na Craft Brewers Conference 2009, que aconteceu em abril em Boston.

Para quem não sabe, a cerveja artesanal vem se tornando um movimento cada vez mais forte nos EUA. São mais de mil fabricantes. Predomina a colaboração e a troca de informações entre as empresas, que têm um inimigo em comum: as cervejarias gigantes que oferecem cerveja de péssima qualidade. Aliás, pode-se dizer que esse inimigo é hoje o mesmo lá e aqui depois que a InBev comprou a Anheuser-Busch.

O vídeo é muito bem produzido e vai na linha “guerreiros da cerveja”. Só que, ao contrário de outras áreas como música e esportes, nesse caso é uma postura mais do que bem-vinda. Em vez de rivalidade e fanatismo cego, gera colaboração e soma de forças, porque o fã de cerveja artesanal dificilmente é casado com uma marca e está sempre disposto a experimentar outras. Ao contrário da massa que não abre mão da urina de porco conhecida como Skol.

Assista e veja o orgulho com que eles dizem: “Eu não ponho milho ou arroz na minha cerveja”. :)

Para ver com legendas em português, clique no link abaixo do vídeo e vá até o YouTube, depois ative as legendas no canto inferior direito do vídeo.

Eu ainda não sou um craft brewer, mas me identifiquei 100% com o vídeo.

Salve Marduk!


Link do Vídeo

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Hoje é Sempre

Ainda 2003, o ano que quase não terminou.

Depois de erguer o altar quântico, passamos a outro aspecto da física: o tempo, que era constantemente distendido nessa época. Nascia Hoje é Sempre.

Hoje é Sempre

A fotografia da capa foi tirada em uma divertidíssima tarde, com um coração bovino, engrenagens de relojoaria e vários exemplares de Periplaneta americana, essas simpáticas baratas com chips nas costas, que com certeza vão fazer a alegria das fãs e leitoras. Hoje, um pouco menos ignorante em fotografia, sei que não deveria ter utilizado essa placa de cortiça como fundo.

O disco já abre logo com um microfonal. Lembram-se de Tietê, onde foi profetizado como a civilização sucumbiria no dia em que os bits parassem de trabalhar? Em Micro phono Alles um pronunciamento pouco inteligível e diluído em delay desenha esse cenário de escombros e ruínas, com gravatas estiradas pelo chão. Mais ou menos como Tyler Durden via o futuro, só que nas avenidas Paulista e Berrini.

Onde há mar é, há mar é talvez a primeira tentativa da banda de fazer um som, digamos, musical. O guitarrista convidado não voltou mais a Arbória.

Em TempEspaço nosso velho amigo Vaz nos leva por mais uma viagem na modulação de ondas.

Anti-jazz 4D dá uma palhinha do estilo atormentado de tocar sax que nos caracteriza. No final, um punk no estilo finlandês. Salve a terra de Kimi Raikkonen.

Mandinga Quântica é um segundo microfonal, meio atmosférico, com o inevitável baixo em delay. Um perturbador pronunciamento transbordando de efeitos declama Mário de Sá-Carneiro, perfeito dentro da temática do disco: “Para mim é sempre ontem. Não tenho amanhã nem hoje”.

Periplaneta americana é uma homenagem às musas da capa do disco. Baterismo obsessivo, notas de Peter Brötzmann e um vocal quase lírico.

Lake of Fire recicla o Guerreiro do Metal, em modo guitarless.

A corneta de Satã: nada mais que uma sátira ao grindcore.

Se o disco abre com um microfonal e passa por outro, fecha com um terceiro: Hoje é sempre, uma homenagem a Vultan.

Hoje é sempre.

Baixe e ouça.

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Dia da Cerveja Alemã

Quando eu era pequeno sempre ouvia a história, comum neste inculto país, de que a cerveja foi inventada na Alemanha. Mal sabia eu que esse néctar era tão antigo quanto a própria espécie humana e deve ter sido descoberto um pouco mais ao sul, ali pelos lados de Bagdá, há uns 6 mil anos ou mais (se você é daqueles que acreditam que a Terra tem 6 mil anos, está no blog errado).

O que os alemães criaram de fato foi a famosa Reinheitsgebot (Lei de Pureza), que regulamentava a produção e os ingredientes, no dia 23 de abril de 1516. Por isso hoje é comemorado o German Beer Day, o Dia da Cerveja Alemã, ou o Dia Alemão da Cerveja. Enfim, o dia da cerveja na Alemanha. Para seu engrandecimento cultural, leia este ótimo texto sobre a lei.

Essa lei hoje é seguida mais por tradição do que por outro motivo, e pode acabar gerando um comportamento meio guerrilheiro, do tipo “só tomo se seguir a lei de pureza” ou algo assim. Claro que isso é bobagem e deve ser evitado a todo custo, como qualquer tipo de radicalismo. É possível seguir a lei e criar uma cerveja medíocre, assim como é possível ignorá-la e atingir a glória, como no caso das belgas.

Para celebrar a data, cerveja alemã, claro! De preferência que siga a lei. Eu vou de Weihenstephaner Hefe Weissbier. É a mais antiga cervejaria em atividade, com quase mil anos de idade (criada em 1040)!

O melhor são as peças publicitárias com as freiras. Veja a felicidade das irmãs ao degustar uma stephaner:

Vida boa

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Altar Quântico

Ainda estamos em 2003, ano de farto plantio sonoro (a colheita está acontecendo neste exato momento).

Desta vez a física, sempre presente na temática, se impôs definitivamente e ganhou o título de Altar Quântico, álbum que questiona as religiões e a fé de uma ótica racional (sem resina e goma, por favor, isso será outro disco).

Na capa, as principais crenças do planeta estão representadas. Veja a imagem e tente descobrir quais são. Você não vai acertar todas. No download há uma versão maior. Como bônus, veja a imagem do verso para as crenças menores: é quase tão divertido quanto a capa de Somewhere In Time, do Iron Maiden.

Altar Quântico

Vamos ao que interessa.

Altar Quântico: poema que sintetiza a proposta do disco.

El espírito de Dios: é ele, o tão esperado microfonal, com a participação especial de el missionero David Miranda.

Se Chico Xavier arde no inferno de Javeh e Alá não teve pena de Inri Cristo porque era parente de Maria, irmã de Buda, primo irmão de Diana, cujo pai em primeira instância foi Marduk, cunhado de Cristo, irmão de Krishna, sobrinho-neto de Ganesha, inimigo de Zoroastro que conheceu Tupã quando jovem: o formato do título é inspirado em alguns títulos quilométricos de Damião. É um som tranqüilo, com percussão leve, sax e viola.

Des/mÚsica: multiplique a música por -1, o resultado é esse som. É importante ouvir até o apoteótico final.

Guerreiro do Metal (Morte ao falso metal): não se esqueça que o disco trata da fé. E esse pessoal pode atingir níveis elevados de fanatismo. A faixa é, claro, um metal.

Faith Release Service Pack 2A: somos da área de TI, onde a fé acontece com freqüência. Quase sempre em pingüins…

Blue Pill x Red Pill x Religion Pill: fé em filmes? Nesse, com certeza. Bateria confusa, sintetizadores perdidos e um efeito bem irritante que persiste até o fim, quando uma pianola faz a ligação com a faixa final, cortada por um breve lapso sonoro-temporal.

Tao: um feito. Conseguimos criar um som que dura menos de 1 segundo. Como o Winamp não exibe frações de segundo, o tempo do som é 0:00.

Requeima (A segunda morte): espécie de continuação de Anhangabaú (a queima das almas. Surgiu por acaso, enquanto gravávamos efeitos com teclado, pianola e Vaz. Lembra o som de baleias e nos faz pensar se elas têm alma. E se essas almas serão também julgadas.

Altar Quântico marca o início de um procedimento que se tornou necessário devido à gigantesca quantidade de sons semelhantes produzidos nessa época. Tudo era muito parecido e tocado repetidamente. A dificuldade de moldar uma faixa minimamente decente (para o nosso padrão) a partir dessa matriz de dados repetidos fez com que aperfeiçoássemos uma técnica de cirurgia de ondas sonoras, executada no próprio Sound Forge. O resultado às vezes é preciso, às vezes é grotesco. E acaba sendo sempre ótimo.

Faça o download e boa audição.

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Nação

Ainda em 2002, quando o conceito de Nação já amadurecia, a simples menção da idéia poderia causar olhares de reprovação. E causava. Quase sempre em pessoas nascidas fora do estado.

Nação

Curiosa essa idéia de que um paulista não pode afirmar o amor pelo estado. Penso que tem a ver com a liderança econômica: assim com o brasileiro sofre de uma síndrome de coitadismo e de ode ao mais fraco, considera errado que um estado que personifica a pujança econômica afirme sua condição. Assim, é legal e politicamente correto a um baiano ou carioca (só para citar os 2 estados que mais investem na auto-imagem) declarar o amor ao próprio estado. Mas não a um paulista, nascido neste estado opressor e imperialista.

É claro que isso é uma imensa asneira. E assim sendo, gostem ou não, surge em 2003 o álbum Nação. Em suas 21 faixas desfilam fatos, personagens e lugares que fizeram a história paulista.

Não vou comentar todas as faixas, porque muitas coisas se repetem. Mas algumas são dignas de nota:

Para começar, a abertura: NON DVCOR DVCO, um grindcore dos mais precários e toscos. Essa gravação foi e é motivo de orgulho para nós. É um exemplo de libertação: como não conseguíamos achar o tempo certo da bateria, optamos por gravar a batida absolutamente reta, sem qualquer virada. O resultado, como vocês poderão ouvir, foi sublime. O título é o lema do brasão da cidade de São Paulo e significa algo como “Não sou governado, governo” ou “Não sou conduzido, conduzo”. Dona Marta Teresa aprendeu direitinho o significado dessa expressão na eleição de 2008, quando achou que dobraria o eleitorado explorando a vida pessoal do prefeito para ganhar…

Logo em seguida, embarcamos em uma locomotiva da saudosa linha Sorocabana em M.M.D.C.(A.) para um passeio de trem pelo estado, com baixo em delay e microfonias diversas. Já com o A (de Alvarenga) incorporado à sigla tradicional de 23 de Maio, conforme as recentes revisões históricas.

Em Piratininga fazemos uma fusão de 2 versões do Hino do Estado de São Paulo (sim, isso existe) e declamamos expressões típicas nos sotaques da capital e do interior. Em Liberal 1842 arriscamos um som a Damião Experiença, com um ótimo resultado.

Para quem estava com saudades do Chorume, oferecemos Guerra dos Emboabas.

Entradas e Bandeiras é a homenagem aos bandeirantes que, de forma tão amistosa e afável, travaram contato pacífico com os silvícolas e desbravaram o interior do estado.

Tietê é o microfonal de praxe, com algo a mais: uma surpreendente profecia sobre o fim da era da informação.

Fechando, Anhangabaú (a queima das almas). Aqui o experimento com sax e delay criou o que julgamos ser a trilha sonora para a queima de almas condenadas no juízo final. Essa faixa teria uma espécie de continuação em Altar Quântico, o disco seguinte.

Nação marca o primeiro cisma da banda, quando um dos membros foi convidado a se retirar por divergências musicais e… gerenciais, por assim dizer. Passamos a trio, com o baixista fazendo a guitarra quando fosse necessário.

Faça o download e boa audição. Conforme explicado no resumo do disco, dipensamos acusações de separatismo.

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Carnéia 2009

Carnéia 2009

Mantendo a tradição, celebramos hoje a proteína bovina. A foto, mesmo ruim, mostra os despojos no prato.

Tenho notado que as churrascarias vêm tendo mais freqüência na data do que há alguns anos. Ruim para nossa confraria, que perde a tranqüilidade de uma churrascaria semi-deserta. Bom para o ramo, que percebe que abrir na sexta-feira santa pode ser bom negócio. Esperamos que as grandes do ramo, como a Fogo de Chão, sigam o exemplo.

E mais um sinal de que as determinações culinárias de Roma vão se tornando obsoletas a cada ano, assim como a própria organização.

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Homenagem póstuma a Frankito Lopes

2008 não apenas foi um ano amargo para a música brasileira, como parece ainda causar estrago mesmo 4 meses depois de ter terminado.

Navegando a esmo no Orkut descubro, em uma das comunidades a ele dedicada, que em novembro passado perdemos Frankito Lopes, o Índio Apaixonado.

Frankito Lopes

Frankito era paraense, ou seja, já nasceu em solo sagrado. Leitores (Roger e Alexandre) me corrigem quanto ao nascimento: Frankito nasceu na Ilha do Bananal. Ou seja, nasceu goiano e morreu tocantinense. De qualquer forma, fez sua carreira no Pará, terra santa do brega.

Participou do programa do Bolinha – como a nossa TV pôde piorar tanto em 2 décadas?  – e teve a obra regravada pelos grandes nomes. Dono de um timbre perigosamente próximo ao sertanejo, abusava dos “ai-ai-aaaaaiiii” típicos da guarânia.

Deixa vasta obra que inclui peças como “Fruto de um Romance”, em que revive o tradicional clichê brega do pai que não pode revelar a identidade à filha ilegítima, “Quero Dormir Em Teus Braços”, regravada inclusive por Adelino, “Opala Vermelho” e “Parabéns Pra Minha Dor”.

A morte foi anunciada na comunidade e confirmada por um membro que afirma ser sobrinho do Rei dos Bregueiros. Procurei pelo Google e não achei absolutamente nada. Nenhuma notícia. Hoje em dia, ficar assim ausente do Google é um feito e tanto. Um triste feito, nesse caso. Frankito merecia mais.

Atualização (16/10/2010): mais de 1 ano e meio depois de publicar este texto, fico feliz em ver que a morte de Frankito já não é mais ignorada pelo Google, graças aos fãs que sempre visitam esta pequena homenagem e acrescentam várias informações: Amadirson, que foi amigo pessoal, informa que Frankito morreu em decorrência da bebida (de forma semelhante a Adelino). E a própria filha do Índio Apaixonado, Nilbi, apareceu para comentar.

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Rei Sapo

Rei Sapo

Logo depois do Kraka, saía o segundo disco.

Rei Sapo é um disco semi-temático, já que a maioria das faixas é dedicada ao universo batráquio.

O disco abre com um coral de sapos e já pula para Samba Saucers, que nada mais é do que uma roda de samba no espaço. Ba-ion faz a fusão de triângulo e bumbo com bósons e outras partículas. A outra faixa nesse ritmo, Baião Atômico, traz um inédito encontro dos grandes nomes da sanfona, todos já mortos e de volta à Planície Racional.

Nesse disco a experimentação com música eletrônica é forte em Beta Release, Pancho, Dendrobates e Swamp Song. Com direito a sapos sintetizados. Aliás, Dendrobates também serve para homenagear o Azureus, notável software de Torrents que segue driblando as RIAAs da vida.

O mundo gira, a Lusitana roda e um ex-guerreiro do metal agora brinca com sintetizadores, na faixa Toro.

Ro-Danç(c)aos traz a primeira experiência de sonorizar um poema bidimensional. Em Saponáceo é a vez da pajelança rítmica, percussão pura.

Sapainca traz o velho e bom microfonal – nesse ponto já uma tradição – e o disco fecha com Bufo marinus, em que o próprio entoa as despedidas.

É digno de nota o fato de termos encontrado um cururu ostentando tamanha austeridade e dignidade para a foto da capa. Ele é a própria encarnação do conceito do disco.

A seguir, entrando em 2003, viria o terceiro disco. Um álbum que já nasceu para ser mal interpretado, mas que precisava ser feito.

Download de Rei Sapo

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Kraka Tachion

Kraka Tachion

Nos anos de 2002 e 2003 eu passava boa parte dos fins de semana e algumas noites fechado em um quarto. Nessa época o estúdio Arbória ainda estava sendo montado, não havia as paredes forradas com caixas de ovo, a enorme quantidade de instrumentos fabricados com sucata nem a gravação multitrack do Pro Tools. Só contávamos com o Sound Forge, uma mesa com meia dúzia de canais, alguns cabos e microfones. Nessa forja sônica, tudo era gravado de uma vez e isso era o que se obtinha. Se o baixo estourasse – o que acontecia com notável freqüência – ia ficar estourado.

Experimentar e gravar

Quase todo final de semana tinha função, e até mesmo durante a semana à noite. Trabalhávamos todos na mesma consultoria de informática na Berrini, saudosa empresa que não resistiu à ingerência de seus diretóres e pereceu. Por manter esse contato diário e trabalhar na mesma área, conseguíamos uma boa sintonia de idéias e troca de influências musicais e conceituais. De forma natural, o som era visto como código-fonte e estruturas de repetição.

Não havia ensaio propriamente dito: era entrar no estúdio, fazer uma rápida checagem dos instrumentos, ligar o Sound Forge e mandar ver. Nisso iam 15, 20, 30 minutos. Terminado, o arquivo .wav era salvo e ficava registrado. Pausa para um descanso rápido e… mais som! Fica fácil imaginar o volume de gravações que foi se acumulando ao longo dos anos. Haja gigabytes.

A cada semana íamos absorvendo influências as mais variadas: o puro brega (tanto o oitentista quanto o atual paraense), o grindcore, o punk mais tosco possível, o free-jazz (sem jihad), Sun Ra, forró das antigas (salve Negão dos oito baixos!). E Damião, claro. Uma interminável pesquisa de novos estilos, ritmos e influências. Quem descobria algo digno de nota levava isso às sessões e, se aprovado, passava a fazer parte da ampla gama de influências.

Ruído + música = som

Em meio a isso tudo, o Kraka foi tomando forma. Inicialmente, a própria banda se chamaria Kraka Tachion, mas depois do primeiro cisma que transformou o quarteto em trio o nome foi mudado, sem perder a referência à física. Kraka passou a significar uma filosofia sonora, mais do que apenas um disco.

Essa filosofia, moldada e polida a cada semana, está apoiada em 2 pilares: a absorção de influências citada acima e o conceito de som.  Procuramos ver a música – ocidental, métrica e afinada – como um subconjunto de algo maior: o som. Essa entidade soberana também engloba ruídos, modulação de ondas, microfonias, repetição por delay. E música. Tudo é passível de ser tocado, modulado, invocado. Se eu toco um jazz afinadinho em uma faixa, nada me impede de tocar um grind de 3 segundos na faixa seguinte. Não há nada que obrigue uma banda a tocar um único estilo, embora isso seja quase um dogma musical.

Por isso a página da discografia é chamada de Sonografia. E por isso é importante ouvir o disco todo. Com isso em mente, vamos à primeira audição. Baixe o álbum, abra no seu Winamp e clique no play.

  1. Fim – Faixa que abre o disco e a banda, onde uma solene pianola Hering faz o papel de arauto do que está por vir. The shape of sounds to come.
  2. Tionismo – Um pontiado de viola emulado por meio de guitarras, Tião Carreiro plugged.
  3. KR3 – Uma balada (?) executada com garrafas e uma percussão bem tranqüila. É uma pausa necessária para o que vem em seguida.
  4. Matéria – Aqui mostramos de forma pungente o significado de primeiro take. E também toda a nossa preocupação em tocar bem.
  5. V Amor – O V é na verdade o símbolo de raiz quadrada. Cordas dissonantes, garrafas, percussão, guitarra e um acalorado debate ao final. É uma boa mostra de como é experimentar com som.
  6. Borda – Volta a pianola fazendo duo com freqüências diversas.
  7. Unção – 7 camadas de glossolalia (orações em línguas). Há quem jure que se ouve o próprio R. R. Soares.
  8. Hypercubo – Concebida como uma orquestra de corvos sintetizados.
  9. Opus Chorume – Sinfonia em 14 movimentos da nossa antiga banda Chorume, que sucumbiu ao próprio conceito de ser anti-tudo e teve que ser encerrada.
  10. Obsessão – Uma assombração rítmica que se apossou da banda e foi exorcisada com uma invocação de proparoxítonas.
  11. Kafka Tachion – Bateria de teclado, camadas de sintetizadores e percussão criam o ambiente para uma reflexão sobre olhos, telas e resoluções.
  12. F(x) = x + 1 – Aqui a coisa é eletrônica. Uma tentativa de criar uma rave em Saturno.
  13. Simulasticidade – Uma pavê eletrônico feito com pianola e várias camadas de sintetizadores.
  14. Revelação Microfonal – Apresenta um conceito que se tornaria parte essencial do nosso som: o microfonal. É o parto de ondas sonoras arrancadas à força de um conjunto de pedais de guitarra, microfones baratos e amplificadores ruins. Como um animal sônico, essa combinação evoluiu ao longo do tempo até se tornar um instrumento completo: o pedaltron, com direito a partitura e linguagem própria.

Os ambientes são criados com modulação de onda via software e o inevitável teclado Casio (que às vezes pode ser Yamaha). Na época, não dispúnhamos de bateria, que era tocada no próprio teclado. A percussão era conseguida com tambores regionais, como a Caixa do Divino e o Tambor de Crioula – salve(m) o Maranhão! Havia também um bongô de péssima qualidade, que faz as vezes de caixa em Matéria. Sem falar no Reason e no Vaz, importantíssimos softwares de emulação de sintetizadores e que podem ser considerados membros da banda.

Não há letras propriamente ditas, mas poemas lidos e sonorizados. Estão todos no livro Phaneroscopia. E também pronunciamentos, como em Matéria, que surgiam em plena gravação como revelações instantâneas instanciadas pelo pajé sônico e que se tornariam parte integrante do processo supersimétrico.

Para apreciar, faça o download de Kraka Tachion.

Comentários no site são esperados e bem-vindos. E não há porque ter receio de dizer que achou ruim. Um comentário honesto é sempre preferível a um hipócrita “ah…legal”.

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