
O blog Brejas, tradicional fonte de conhecimento cervejeiro, lançou um tema interessante e necessário: o beer-evangelismo, ou seja, a divulgação do conhecimento cervejeiro para o grande público que desconhece a vastidão desse mundo.
É natural querer compartilhar com amigos alguma coisa boa, seja um bar, um som, um destino de viagens. Quem descobre o universo da cerveja também vai querer divulgar. E é aí que reside o problema. Ao tentar divulgar a cultura cervejeira para quem só conhece as pilsen de massa, corre-se o sério risco de cair na armadilha do pedantismo, que até pouco tempo era exclusivamente vinícola.
Associar vinho a pedantismo é algo quase natural, tamanhos foram os esforços de tornar a bebida algo esnobe. Agora, a mesma ameaça ronda a cultura da cerveja.
Ao tentar educar os amigos sobre a infinidade de sabores e variedades da cerveja, muita gente pode acabar passando a imagem de chato, inclusive criando o neologismo “cervochato”, para fazer companhia ao enochato. OK, sejamos mais explícitos: muita gente É cervochato. O próprio vocabulário usado, embora necessário para transmitir o conhecimento, pode passar essa impressão. É nesse momento que entra em cena a sensibilidade do evangelizador. Como disse um visitante do Brejas: “O segredo da boa comunicação reside na habilidade de usar um vocabulário adequado à audiência”.
Mas a cerveja artesanal não é elitista e inacessível? Sim, eu sei que a cerveja artesanal é cara. Mas tem gente que gasta 300 reais em uma calça. Eu gasto 30 em uma garrafa de cerveja. Questão de escolhas. E mais: tem muita gente que adoraria tomar uma simples Bohemia Weiss ou Confraria e sequer sabe que elas têm sabor diferente ou mesmo que existem. E convenhamos, uma Eisenbahn longneck por 3 reais não é nada de outro mundo. A não ser para quem só bebe em quantidades industriais, para satisfazer espectativas de grupo. E é aí que reside o outro lado da questão.
Evangelistas, pérolas e suínos
Você, caro leitor, já iniciado nos caminhos de Marduk, chega repleto de boas intenções a uma mesa de bar e, de forma sutil, tenta introduzir o assunto. Comete o erro de questionar o dogma das massas de que só se bebe cerveja “estupidamente gelada”. Imediatamente vai ser taxado de “fresco”. Com graus variados de agressividade no uso do termo. Há comunidades no Orkut onde a simples menção do termo “papilas gustativas” desencadeia uma cascata de ofensas. Cada um tentando aparentar mais fidelidade à manada do que o outro.
Já que estamos no campo da evangelização, chamo aqui o evangelista Mateus Levi, que escreveu:
Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas; para que não as pisem, com os pés, e, voltando-se, vos despedacem.
Mateus 7:6
Estou chamando seus amigos de porcos? Não necessariamente. Apenas afirmo que tem gente que se recusa a absorver conhecimento e só consegue viver como parte de um rebanho, adotando comportamentos de manada. Se esse rebanho é tratado com rações de Skol e similares, gosta e não abre mão, que fique com isso.
Se seus amigos reagem à sua tentativa de apresentar cervejas com C maiúsculo te chamando de fresco… troque de amigos! Não estou brincando. Amizades se baseiam em afinidades. Você realmente precisa conviver com gente que tripudia da sua boa intenção de tentar apresentar cervejas fantásticas?
Pense nisso.
E salve Marduk!
OBS: Ciente do risco do pedantismo, evito recusar Skol e outras amostras de urina de porcos sifilíticos onde não houver outro jeito. Recentemente estive um jantar, e fiz questão de levar algumas Eisenbahn Strong Golden Ale e Dunkel para evangelizar. Mas não recusei uma lata de Skol para abrir os trabalhos. Claro que, assim que terminou a primeira, fui correndo para a Bohemia. A diferença já é marcante.
OBS 2: A abordagem meio sacra que dou à cerveja não é muito comum em outros sites, que preferem tratar mais dos aspectos técnicos e organolépticos. Ambas são válidas. O ritual é parte importante das interações humanas e, que mais não seja, o próprio Cristo era fabricante de vinho nas horas vagas. Salve Marduk novamente!