O black metal sempre foi o mais marginal entre os sub-gêneros do metal. E, não por acaso, um dos meus favoritos.
Nunca gozou de prestígio, estádios lotados, dinheiro e fama. Teatral por excelência, adotou no palco a receita do KISS (sem os lucros obscenos): pintura facial – o corpse painting – e vários recursos cênicos como cuspir fogo. Já li sobre shows que ostentavam um suíno empalado em pleno palco.
Claro que nem tudo é digno de nota, como o fato de, na Europa, a cena black atrair tipos com idéias mais do que tortas, como o tal National Socialism Metal – para quem não sabe, Nacional Socialismo = Nazismo. Isso sem falar no famoso Inner Circle do metal escandinavo da década de 90, que tinha o… salutar(?) hábito de queimar igrejas.
Frutificai e ramificai-vos
Como toda ramificação do metal, o black está fadado a também se ramificar, num fractal eterno de novos sub-estilos: drone, ambient, doom, depressive, symphonic e por aí vai.
Só que, ao contrário do que se poderia imaginar, isso não significa necessariamente reciclar ad-nauseum os temas do louvor a Satã e da fraqueza do deus cristão, etc. Embora a temática black sempre vá girar em torno do oculto, há espaço para criar. E a maior prova disso é uma tendência que ganha cada vez mais força: a regionalização.
Paganismo multicultural: porque além d’Ele, outros há
Cantar para Satã é fácil: trata-se de uma figura mitológica universal: serve para qualquer um. Em vez de usar do recurso fácil, cansativo e previsível de escrever temas louvando o bode, muitas bandas estão preferindo evoluir e olhar para a própria cultura, optando por cantar as divindades locais, o culto aos elementos e à própria natureza: é o pagan black metal.
No princípio era o viking metal escandinavo: em vez de satã pra lá e pra cá, Odin, Thor, Valquírias e, claro, o banquete eterno (e aí Jeová, que tal pelo menos um almoço na chegada?).
Não demorou a gerar frutos pelo mundo afora.
Eis alguns exemplos (clique no nome para visitar a página no MySpace):
Illapa (Peru) – Illapa é o deus dos raios e relâmpagos (o Thor peruano). A banda aposta no peso sem necessariamente usar de alta velocidade, e o resultado é deveras digno. Vocal carregado e raivoso, quase embriagado (de chicha, claro). Uma das minhas favoritas.


Belenos (França) – Belenos é o deus-sol celta, também conhecido em outras paragens como Horus, Mitra, Dionísio, Krishna, Yeshua, etc. Alterna passagens rápidas com climas celtas no teclado e violões, vocal cavernoso em coro, lembrando bastante Dimmu Borgir.

Yaotl Mictlan (México) – Adotam o visual PRI, com lenços no rosto a la subcomandante Marcos. O disco canta louvores a Chaac, divindade maia da chuva. Black metal relativamente trabalhado, com direito a trechos de flautas e percussão pré-colombianas.

English Not Spoken
O mais legal é que as bandas não apenas cantam a cultura local, mas também abrem mão do inglês para cantar no próprio idioma. É claro que isso é praticamente suicídio comercial, já que o inglês é soberano e obrigatório para quem tiver pretensões maiores. Mas, quer saber? O resultado final é ótimo, especialmente em espanhol, idioma que combina como poucos com o som extremo.
Sem cair naquela conversinha mole de indústria cultural, comercialismo, etc, o fato é que o pagan metal desdenha da fama (inviável, dada a temática pouco palatável) e faz o som pelo som. É a sabedoria pregada por Skylab, que serve para qualquer artista: tenha uma profissão e faça a arte sem pressão financeira.
Ou se aposente como operador de radar da marinha.
Brasil?
Por aqui, infelizmente, ainda não vi sinal de metal pagão. O mais perto que se chegou foi o Roots do Sepultura e as bandas Gangrena Gasosa e Ocultan.
O Gangrena inovou com o álbum Smells Like a Tenda Espírita, onde brincavam com a mistura de metal e religiões afro-brasileiras, criando o saravá metal. Continuam na ativa: o próximo disco está pra sair e se chama Se Deus é 10, Satanás é 666.
Já o Ocultan aborda a Quimbanda, só que a sério, sendo inclusive praticantes. O último disco – Atombe Unkuluntu – é som extremo de primeira linha.
É um começo, mas cultos africanos são… africanos! Cadê uma banda que cante de forma contundente e extrema as glórias de Tupã? Aliás, Tupã tem glórias?
Acho pouco provável que apareça essa fusão entre Sarcófago e Policarpo Quaresma (ou Oswald de Andrade). Brasileiro não é exatamente conhecido por valorizar a própria cultura. E quando faz, cai inevitavelmente no africanismo, que é tão importado quanto o cristianismo.
O jeito é consumir o que vem de fora. A parte boa é que está vindo cada vez mais, e de cada vez mais lugares.
Louvados sejam Quetzalcoatl, Illapa, Belenos, Zeus, Júpiter, Osíris, Kali, Odin, Gandarla e todos os outros.
OBS: Se alguém conhecer e quiser apresentar alguma outra banda do estilo, é só incluir um comentário. Ide e pregai.