A saga de Biorn – O viking condenado ao céu

Na mitologia viking, todo guerreiro morto em combate é conduzido até Valhalla, o salão no reino de Asgard onde passará a eternidade em um banquete infinito regado a muita cerveja e hidromel. Quem não quer uma eternidade assim?

Muito melhor do que a promessa islâmica de 72 virgens. Alguém já parou para pensar que, depois de consumidas, elas deixam de ser virgens? O benefício expira rapidamente. Isso para não falar no possível erro de tradução do texto original, segundo o qual não seriam virgens, e sim uvas passas brancas, o que eleva a coisa a um grau de ridículo inimaginável.

E muito melhor do que a chatíssima Nova Jerusalém cristã, onde os salvos pisarão ruas de ouro e louvarão a Jeová eternamente. Algum cristão já parou 2 minutos para pensar no sentido prático disso? Duvido que tenham a mais remota dimensão do que seja uma eternindade. Acho que seria impossível não ser consumido pelo tédio. A versão católica evoca aulas de harpa em nuvens. OK, pelo menos dá pra fazer um som, mas mesmo assim deve ser um sofrimento sem fim.

O céu como inferno

A animação abaixo conta a saga de Biorn, um viking já idoso que luta desesperadamente para conseguir morrer em combate e ganhar seu passaporte para Valhalla. Se morrer de forma indigna, vai ser jogado na “monotonia agonizante” de Helheim, o inferno gelado viking.

Biorn tenta de tudo, mas não dá sorte e só quebra a cara: seus inimigos são atrapalhados e acabam se matando sozinhos, negando ao nosso herói a chance de ser morto. Já sem esperanças, Biorn ouve gritos de pavor ao longe. Chega a um vilarejo que está sendo incendiado e destruído por uma criatura gigantesca. Bravamente, ele empunha a espada e enfrenta o monstro. Derrota a criatura, salvando as freiras da igreja do vilarejo. Para sua felicidade, acaba morto no combate.

E lá está Biorn, nos portões de Asgard, uma espada de ouro em uma mão, um caneco pronto para ser cheio na outra, galgando os degraus. Mas…

Eis que as freiras encontram o corpo, se compadecem e o enterram. Imediatamente, os portões mudam como numa roleta gigantesca e Biorn acaba entrando desavisadamente no… céu cristão! Fechados os portões, ele não consegue mais sair e se agarra às grades feito um prisioneiro, berrando desesperadamente. De auréola e tudo.

Pobre Biorn! Ele merecia coisa melhor… :)

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O mito da cerveja sebastianista: a Unibroue voltará?

Pausa na loucura religiosa. Vamos à única fé realmente relevante: o cervejismo.

Um ano e meio atrás, eu escrevia sobre uma tragédia: a decisão da cervejaria canadense Unibroue de deixar de exportar para fora da América do Norte.

Só que a preocupação pode ter sido exagerada: teria sido apenas uma pausa temporária.

Naquela época, arrasado com a notícia, eu bebia no Asterix – discreto bar da prainha paulista recheado de preciosidades – quando, folheando a carta de cervejas, observei uma nota na parte da Unibroue, dizendo que a cervejaria iria suspender a exportação durante 2 anos devido à reforma para ampliar as instalações. Foi como ler um evangelho, a própria boa nova do lúpulo. Jesus? Que nada, eu estava era feliz pela volta profetizada das brejas canadenses.

Depois, conversando com importadores, vi que a notícia do Brejas talvez não fosse a tragédia que aparentava: confirmaram que a suspensão seria temporária.

Vale ressaltar que na blogosfera cervejeira não li absolutamente nada mais sobre o assunto além do post original do Brejas que exibia um email em que a cervejaria confirmava que havia decidido suspender a exportação sem dar explicações adicionais. A sensação é que, por aqui, o pessoal não liga muito para a Unibroue. Não consigo conceber isso…

A solução foi ir até a fonte, na medida do possível.

Unibroue 2.0

A Unibroue lançou um site novo, muito bem feito, e marcou presença nas redes sociais: Twitter, Facebook, Youtube e Flickr. Navegando pelo Facebook, deparei com o post abaixo:

Unibroue voltaráNa época em que foi escrito, a página ainda não era controlada pela cervejaria e sim por um fã. Depois assumiram oficialmente a página e o fã criou outra. O comentário acima parece bem seguro e não vejo razão para não dar crédito a alguém que está bem mais próximo deles.

Permanece a dúvida, mas resta a esperança. Por enquanto, tudo no futuro do pretérito. A Unibroue – particularmente as cervejas La Fin du Monde e Trois Pistole – se tornou para mim uma espécie de Dom Sebastião, cuja volta é aguardada com fé.

Talvez voltem a exportar, talvez demore um pouco mais. No final de 2011 completam-se os 2 anos e então saberemos a verdade. Supondo, claro, que o mundo não acabe em maio.

Talvez não seja necessário emigrar para o Canadá.

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Ken Vandermark no Centro Cultural São Paulo

O ano de 2010 foi farto para fãs brasileiros de música livre, free jazz, free improv ou seja qual for o nome. Teve um pouco de tudo.

Passaram por aqui pilares do estilo: Pharoah Sanders e Ornette Coleman. Da nova geração, Ivo Perelman (sim, Ivo é paulista mas “passa” por São Paulo de vez em quando, já que o Brasil tem tradição em expelir talentos rumo ao exterior. É mesmo o país do futuro… do pretérito). Ainda vindos de fora  o EKE Trio – do brasileiro Yedo Gibson, outro que teve que sair – e Hans Koch.

Infelizmente perdi Ornette e Ivo, o resto assisti tudo, assim como o show que fechou muito bem o ano: Ken Vandermark tocou no Centro Cultural São Paulo, no mesmo palco onde foi registrado Rogério Skylab IX, a sala Adoniran Barbosa.

Ken Vandermark

Noite quente na cidade, finalmente o aquecimento global resolveu dar as caras, já que até novembro fazia frio, uma falta de respeito com Al Gore. Morando a 5 minutos do Centro Cultural, fui à pé mesmo. Palco já conhecido, esperei na fila ouvindo Sílvio Max, legítimo sucessor de Adelino, para contrastar com o clima cult que emanava do local.

Eu conhecia Ken Vandermark do Sonore, poderoso trio de sopros que ele formou com ninguém menos que Peter “Pulmão de Aço” Brötzmann e Mats Gustafsson. Mas não conhecia os outros integrantes do trio que tocaria nessa noite. Gratas surpresas.

Na bateria, o britânico Mark Sanders. Pegada forte e improvisação bem variada.

No baixo, Luc Ex. Em uma palavra: possessão.

Foram 4 temas, mais um rápido e devastador bis. Já começaram descendo a lenha, mostrando que a noite seria bem diferente do minimalismo de Hans Kock, por exemplo. Era isso mesmo o que eu queria ouvir. No segundo tema, Vandermark foi de clarinete, que inclusive foi percutido no sopro, momento em que o trio se tornou totalmente percussivo, quase um Kraka dos velhos tempos.

Mark Sanders bateu forte e, nos momentos certos, bem leve. Percutia o que aparecesse pela frente no kit, inclusive abrindo mão de qualquer forma de baqueta nos trechos mais mansos, apenas esfregando as peles, aproveitando os raros momentos em que Luc Ex se acalmava.

O baixo foi a revelação da noite. Acústico, era atacado com fúria obsessiva por Luc, que dava a impressão de não conseguir passar mais do que 2 minutos tocando de forma suave. Descambava para um baixismo quase ideal, possesso porém não ausente, dada a sintonia do trio. Usou o feedback das caixas de retorno e um pedal de distorção no último tema. A distorção aqui não foi igual ao cataclisma de Marino Pliakas, foi outra proposta bem mais discreta, já que Luc Ex gosta mesmo é de espancar as cordas. Percutiu e esmurrou o corpo do instrumento, que, em resposta, fez o corpo do instrumentista não ficar parado um só instante. Um grau de unidade com o instrumento que não me lembro de ter visto antes, e que dá gosto de ver.

Ao final dos 4 temas, se retiraram sob aplausos. O povo passou a aplaudir de forma ritmada, pedindo o retorno, acompanhados pelo sistema de iluminação. Pedi e dar-se-vos-á. O trio retorna e executa um rápido e fulminante freezão, porrada mesmo, para fechar com chave de ouro, ou, nas palavras de um dos presentes na platéia, para “dar o mata-leão”.

Depois de ver um faraó contido e dançante, o que eu queria era ver a porrada comendo solta mesmo. O trio de Ken Vandermark conseguiu isso, com improvisação bem sintonizada. Só ficou faltando o sax barítono.

Vale ressaltar que a purificação da audiência simplesmente não aconteceu. Como eu já tinha observado, o público do Centro Cultural sabe o que quer e o que ouve.

Terminada a função, Vandermark retornou ao palco para conversar com quem aparecesse. Estrelismo zero, como é de praxe no estilo. Quem precisa de estádios lotados?

Que venha 2011, e que venha com muito som, ruído, frequências e música.

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Helheim no jardim de infância – Que Odin pegue as crianças antes que Jesus o faça

A escandinávia é uma região rica em folclore. E o metal é o gênero que mais se alimenta de histórias folclóricas. O resultado não podia ser outro: o viking metal. Mais do que um gênero, é um conceito: pode ser usado tanto no metal melódico quanto no death/black metal.

O que é difícil de imaginar, pelo menos aqui nessas paragens sul-americanas, é o quanto a dupla folclore/som pesado é difundida nos países escandinavos.

Navegando outro dia pelo Bunalti (infinito repositório de som pesado), descobri a banda Helheim, da Noruega. Sim, o país é muito mais do que o A-ha. Fazem metal pagão cantando num misto de norueguês e inglês.

Até aí, nada demais, Banda de metal viking na Noruega é quase como grupo de pagode nas periferias do Brasil. O inusitado, no caso do Helheim, foi um show acústico que fizeram em um… jardim de infância!

Foi quando do lançamento do álbum Kaoskult. Como parte da divulgação do disco, decidiram fazer um show no Klosteret Barnehage, um jardim de infância da cidade de Bergen. Além de tocar duas músicas em formato acústico, contaram histórias de mitologia nórdica para a criançada, vestido com mantos e espada. Pela foto abaixo, parece que os pequenos noruegueses curtiram:

Helheim e as crianças

O melhor disso tudo? O slogan que utilizaram na divulgação do evento:

We Need To Let Metal And Odin Catch The Kids Before Jesus Does!

Digam: é ou não é absolutamente fantástico? :)

Nas palavras de Elisabeth Alnes, da direção da escola:

Lots of people get this all wrong, and think metal and Satanism are two sides of the coin. These are great guys, and Norse mythology is a very important part of our cultural heritage.

Traduzido:

Muitas pessoas tem a idéia errada e acham que metal e satanismo são dois lados da mesma moeda. Esses são grandes caras, e a mitologia nórdica é parte importante da nossa herança cultural.

A reação óbvia e imediata é tentar imaginar como isso seria aqui. A resposta? Não seria.

Se fosse, seria algum esquerdista tosco tentando enfiar à força a ideologia do saci em crianças que só querem ganhar doces na noite do dia 31 de outubro porque pedir doces é… divertido. Ou algum grupo evangélico tentando barrar o show por ser coisa do diabo. Eu sempre digo: Roots, do Sepultura, foi o mais longe possível que o metal folclórico brasileiro conseguiu chegar.

É por coisas como essa que eu tenho cada vez mais a certeza de ter nascido no continente errado.

PS: o som dos caras é bom, não deixe de conferir.

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Pharoah Sanders no SESC Pinheiros

Com algum atraso relato aqui a passagem por terras paulistanas de ninguém menos que Pharoah Sanders, o filho.

Explicando: Albert Ayler certa vez afirmou que Coltrane era o pai, Sanders o filho e ele próprio – Ayler – o espírito santo, numa referência aos temas Spirits e Ghosts, presença constante em sua obra. Estava cunhada a trindade do free jazz.

Aos 70, Pharoah pisaria em terras brasileiras pela segunda vez. Já havia estado por aqui na época do finado festival Free Jazz. Agora, voltava para 2 shows, dias 21 e 22 de agosto.

Nossa habitual horda de fãs de free se reuniu e seguiu para o SESC Pinheiros. Não conhecia a unidade, e, já na entrada, me impressionou a quantidade de gente e a, por assim dizer, variedade do público. Depois viria a saber a razão de tal comparecimento.

Após uns 10 minutos de espera, entramos na sala. Tendo comprado ingresso tarde demais, pegamos lugares laterais e meio afastados. Mas não havia problema, o evento era importante demais para ser perdido e, dada a idade do músico, talvez não houvesse outra chance.

A sala era consideravelmente maior que a do SESC Vila Mariana, e lotou. Eis que a locutora da casa anuncia “Farôua Sanders”…

Pharoah Sanders no SESC Pinheiros

Rob Mazurek, Chad Edward Taylor, Matthew Lux, Pharoah Sanders, Maurício Takara e Guilherme Granado (foto: Camila Miranda)

E então, conforme eu aguardava ansiosamente, se materializa no palco um pedaço da história. De branco, inclusive cabelo e barba. Um Damião do free, movimentação lenta, mas nem por isso apática.

Na banda, o baterista Chad Taylor, o trompete de Rob Mazurek que segurou bem a onda quando Pharoah descansava um pouco e foi até mais free que o astro, e Matt Lux no baixo, sem grandes arroubos de baixismo a não ser pela ginga e pelo visual que lembrava bastante o baixista original do Supersimetria. Completando a formação os brasileiros Maurício Takara (percussão) e Guilherme Granado (programação de teclados). Ambos tocam na banda Hurtmold (ouça que vale a pena).

O show não foi free jazz. Foi variado, com sonoridade tribal característica da obra solo e loops pré-gravados. Pharoah atacou bem no sax, alternou vários momentos mas não derrubou a sala como gostaríamos. Nem poderia, ele sempre foi o lado mais contido da trindade. Faraó simplesmente ignorou os que esperavam uma volta no tempo rumo aos anos de brilho do free. Estamos em 2010 ou não?

Pharoah alcançou um patamar em que pode fazer o que quiser no palco, tem licença para isso. E ele parecia consciente de que não precisa provar mais nada. Soprava pela campânula do sax simulando um didgeridoo ou algo parecido, emitia gritos tribais e dançava bastante. Resumindo, se divertiu. Provavelmente mais do que todos.

Claro, queríamos ver outro Olatunji, mas sabíamos que não iria acontecer. O Pai já havia partido. E, como acabamos deduzindo, o Filho ficou em seu papel: errar pela terra. Ainda mais considerando que foi razoavelmente chicoteado pela crítica ao longo da carreira. Ayler, o Espírito, acertou em cheio…

A já aguardada purificação da audiência não aconteceu, apenas duas tias à nossa frente se retiraram quando ele ousou um pouco mais com o instrumento.

Mas porque tão pouca debandada? Como eu disse, não foi um show de free jazz, excetuando-se alguns momentos de maior ímpeto no sax pharaônico. Teve vários momentos que lembravam a tal “world music”, por assim dizer. E isso não espanta ninguém.

E porque tanta gente? Quem matou a charada foi Fabrício Vieira: o pessoal compareceu porque queriam ver o saxofonista que “tocou com Coltrane”. Esse “tocou com Coltrane” acaba sendo um chamariz indesejado, que atrai gente que desconhece o músico, não faz questão de conhecer e só vai mesmo para levar namoradas a um evento que julgam ser de prestígio devido ao currículo do artista.

Desta vez tiveram sorte e não havia um alemão com uma corneta ensandecida para expulsá-los.

Já eu tive um privilégio: ver no palco a história viva do som.

Nos vídeos abaixo, 2 momentos do show. No primeiro, Pharoah mais contido no sax e dançando quando parava de tocar. No segundo, a parte mais free. E ainda um vídeo com reportagem e entrevista no programa Metrópole (TV Cultura).


Link do vídeo


Link do vídeo


Link do vídeo

OBS: Não deixa de ler a ótima resenha no blog do Guaciara, de onde tirei a foto que ilustra o post e onde há várias outras fotos.

OBS 2: Só um recado, inclusive ao pessoal do Metrópole no vídeo acima: não é “farôua” não, gente. É “férou”, do nome de batismo Ferrell Sanders. Foi batizado como faraó por ninguém menos que o próprio Sol Ra. Portanto, convém que a pronúncia seja observada.

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Pagan Metal – A evolução do Black Metal

O black metal sempre foi o mais marginal entre os sub-gêneros do metal. E, não por acaso, um dos meus favoritos.

Nunca gozou de prestígio, estádios lotados, dinheiro e fama. Teatral por excelência, adotou no palco a receita do KISS (sem os lucros obscenos): pintura facial – o corpse painting – e vários recursos cênicos como cuspir fogo. Já li sobre shows que ostentavam um suíno empalado em pleno palco.

Claro que nem tudo é digno de nota, como o fato de, na Europa, a cena black atrair tipos com idéias mais do que tortas, como o tal National Socialism Metal – para quem não sabe, Nacional Socialismo = Nazismo. Isso sem falar no famoso Inner Circle do metal escandinavo da década de 90, que tinha o… salutar(?) hábito de queimar igrejas.

Frutificai e ramificai-vos

Como toda ramificação do metal, o black está fadado a também se ramificar, num fractal eterno de novos sub-estilos: drone, ambient, doom, depressive, symphonic e por aí vai.

Só que, ao contrário do que se poderia imaginar, isso não significa necessariamente reciclar ad-nauseum os temas do louvor a Satã e da fraqueza do deus cristão, etc. Embora a temática black sempre vá girar em torno do oculto, há espaço para criar. E a maior prova disso é uma tendência que ganha cada vez mais força: a regionalização.

Paganismo multicultural: porque além d’Ele, outros há

Cantar para Satã é fácil: trata-se de uma figura mitológica universal: serve para qualquer um. Em vez de usar do recurso fácil, cansativo e previsível de escrever temas louvando o bode, muitas bandas estão preferindo evoluir e olhar para a própria cultura, optando por cantar as divindades locais, o culto aos elementos e à própria natureza: é o pagan black metal.

No princípio era o viking metal escandinavo: em vez de satã pra lá e pra cá, Odin, Thor, Valquírias e, claro, o banquete eterno (e aí Jeová, que tal pelo menos um almoço na chegada?).

Não demorou a gerar frutos pelo mundo afora.

Eis alguns exemplos (clique no nome para visitar a página no MySpace):

Illapa (Peru) – Illapa é o deus dos raios e relâmpagos (o Thor peruano). A banda aposta no peso sem necessariamente usar de alta velocidade, e o resultado é deveras digno. Vocal carregado e raivoso, quase embriagado (de chicha, claro). Uma das minhas favoritas.

Illapa LogoIllapa

Belenos (França) – Belenos é o deus-sol celta, também conhecido em outras paragens como Horus, Mitra, Dionísio, Krishna, Yeshua, etc. Alterna passagens rápidas com climas celtas no teclado e violões, vocal cavernoso em coro, lembrando bastante Dimmu Borgir.

Belenos

Yaotl Mictlan (México) – Adotam o visual PRI, com lenços no rosto a la subcomandante Marcos. O disco canta louvores a Chaac, divindade maia da chuva. Black metal relativamente trabalhado, com direito a trechos de flautas e percussão pré-colombianas.

Yaotl Mictlan

English Not Spoken

O mais legal é que as bandas não apenas cantam a cultura local, mas também abrem mão do inglês para cantar no próprio idioma. É claro que isso é praticamente suicídio comercial, já que o inglês é soberano e obrigatório para quem tiver pretensões maiores. Mas, quer saber? O resultado final é ótimo, especialmente em espanhol, idioma que combina como poucos com o som extremo.

Sem cair naquela conversinha mole de indústria cultural, comercialismo, etc, o fato é que o pagan metal desdenha da fama (inviável, dada a temática pouco palatável) e faz o som pelo som. É a sabedoria pregada por Skylab, que serve para qualquer artista: tenha uma profissão e faça a arte sem pressão financeira.

Ou se aposente como operador de radar da marinha.

Brasil?

Por aqui, infelizmente, ainda não vi sinal de metal pagão. O mais perto que se chegou foi o Roots do Sepultura e as bandas Gangrena Gasosa e Ocultan.

O Gangrena inovou com o álbum Smells Like a Tenda Espírita, onde brincavam com a mistura de metal e religiões afro-brasileiras, criando o saravá metal. Continuam na ativa: o próximo disco está pra sair e se chama Se Deus é 10, Satanás é 666.

Já o Ocultan aborda a Quimbanda, só que a sério, sendo inclusive praticantes. O último disco – Atombe Unkuluntu – é som extremo de primeira linha.

É um começo, mas cultos africanos são… africanos! Cadê uma banda que cante de forma contundente e extrema as glórias de Tupã? Aliás, Tupã tem glórias?

Acho pouco provável que apareça essa fusão entre Sarcófago e Policarpo Quaresma (ou Oswald de Andrade). Brasileiro não é exatamente conhecido por valorizar a própria cultura. E quando faz, cai inevitavelmente no africanismo, que é tão importado quanto o cristianismo.

O jeito é consumir o que vem de fora. A parte boa é que está vindo cada vez mais, e de cada vez mais lugares.

Louvados sejam Quetzalcoatl, Illapa, Belenos, Zeus, Júpiter, Osíris, Kali, Odin, Gandarla e todos os outros.

OBS: Se alguém conhecer e quiser apresentar alguma outra banda do estilo, é só incluir um comentário. Ide e pregai.

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Adelino Nascimento Volume 1

Adelino Nascimento Vol. 1

Há discos importantes. Há discos essenciais. E há discos seminais.

Neste último grupo, cujo acesso é para muito poucos, figura em destaque o hoje lendário primeiro disco de Adelino Nascimento, o cantor apaixonado do povão.

Adelino Nascimento Volume 1 veio ao mundo em 1984. Já na foto da capa o álbum diz a que veio: cantar a desilusão. A gravação é primorosa: despojada e vazia, parecia evocar mesmo o clima de desilusão que as letras buscavam. Em algumas faixas nem mesmo o baixo está presente, garantindo um vazio rítmico que, em conjunto com o excesso de reverb na voz, leva o ouvinte direto ao deserto além citado em Garota Proibida.

Pelas 10 faixas ouve-se um Adelino ainda jovem, com a voz muitas vezes trêmula. Seria a insegurança da primeira gravação em estúdio ou um vibrato proposital para enfatizar a proposta? O fato é que a voz ainda em desenvolvimento não foi obstáculo para a interpretação ao mesmo tempo pungente e ausente. Em vários momentos a intenção do artista se manifesta de forma tão eficiente que o ouvinte é levado a experimentar a mesma dor que ele canta, o mesmo vazio, a mesma ausência.

Faixa a faixa:

  1. Não durmo mais – Um ximbau seco e a guitarra com o arpejo típico do brega preparam o cenário para as primeiras palavras de Adelino: “Eu quase já não durmo mais de noite, só pensando em você meu bem. Queria ter você sempre ao meu lado, e não queria ver você com outro alguém”.
  2. Exemplo – Recado do cantor aos desavisados: cuidado com a mulher que trai. Ele canta por experiência própria, aconselhando o ouvinte/amigo a esquecer “essa mulher que só lhe fez sofrer”. O ximbau e o arpejo permanecem inabaláveis.
  3. Adeus Guanabara meu Rio de Janeiro – único momento de verdadeira alegria do disco, este legítimo carimbó canta o retorno do ídolo a Belém do Pará, terra que o abrigou e onde construiu a vitoriosa carreira. Lá ele vai tomar tacacá no Ver-o-Peso, beber aguardente, comer tiragosto de caranguejo e assistir Remo x Papão. Pesadas doses de reverb para o côro do refrão.
  4. Meus olhos estão chorando – Outra desilusão amorosa, levando o personagem ao pranto: “Os meus olhos alta hora estão chorando, te dar adeus é coisa que eu nunca quis”. Aqui aparece a primeira personagem feminina das muitas que povoariam a obra adelínica: Adalgisa, separada do herói quando o destino “conduziu mal conduta”. Primeira referência aos 6 anos que ele passou dando a volta no mundo. Essa peregrinação voltará depois em outro disco.
  5. A derrota do Brasil – Adelino não poupou nem mesmo o futebol, outra fonte de paixões primitivas. Neste frevo ele narra, de forma didática e dramática, a queda da seleção brasileira na copa da Espanha em 1982 diante da Itália. Não poderia ser de outra forma: a eliminação mais dramática do Brasil em copas só poderia ser cantada na voz do cantor apaixonado do povão. Nos acordes finais, a guitarra sofre uma dilatação temporal que evoca nitidamente o tormento e a incredulidade que se apossaram do povo brasileiro naqueles dias.
  6. Garota Proibida – Um dos pilares da obra adelínica. Esse tema é retomado posteriormente em outros discos, e conta a história de um amor que enfrenta um obstáculo quase intransponível: a família. Aqui a interpretação atinge seu ápice, sendo impossível ao ouvinte ficar indiferente ao refrão dramático.
  7. Não vendo mais a casa – o primeiro grande sucesso, junto com Garota Proibida. Aqui temos a saga imobiliária onde ele tenta vender a casa por não querer viver sozinho e no final desiste da venda porque já tem um novo amor. A dupla ximbau/arpejo segue soberana garantindo o ritmo e a harmonia.
  8. O pobrezinho – O drama de um rapaz pobre que é rejeitado por seu grande amor devido à condição social. Possivelmente auto-biográfica, já que o herói da letra é cantor.
  9. Naza – A história de um trabalhador que ao voltar da lida descobre que foi abandonado pela Naza, a segunda das mulheres citadas. Destaque para o pegajoso refrão: “Eu não sei, eu não sei, eu não sei me disseram não sei”. A bateria assume um toque mais roqueiro, 4×4.
  10. Guarânia do Amor – O disco encerra da forma mais melancólica e desoladora possível, com uma guarânia em que Adelino, com interpretação até mesmo desanimada – um desânimo proposital, é claro – murmura: “Eu vou sofrer até quando você voltar”. Estava claro, nesse momento, que nascia um ídolo que mexeria a fundo com o povão.

Ouvir os 32 minutos de Adelino Nascimento Volume 1 é, de certa forma, arriscado. O ouvinte pode sair da experiência transtornado, tamanho é o envolvimento emocional que pode acontecer.

Só há uma certeza: é impossível, já na primeira audição, ficar indiferente a esse álbum.

Não é por acaso que esse disco determinou a ascensão de Adelino Nascimento ao trono da música popular brasileira (MPB): o brega em geral, e Adelino em particular, fala direto à alma do ouvinte.

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Bohemia Oaken – A cerveja de madeira

Da última vez em que a Bohemia se aventurou em uma cerveja nova, saiu a Confraria, que acabou incorporada à família. Agora, tudo indica que a história vai se repetir.

Meses atrás, anunciaram uma cerveja nova, especial, exclusiva, ultra mega diferenciada. Enfim, conversa de marketing. Vinha em um kit com copo e em pouquíssimas unidades, embaladas em uma caríssima caixa de madeira, adquirido apenas pela web.

Oaken

Claro que quase ninguém conseguiu comprar. Claro que todo mundo quis. Claro que lançaram novamente. Dessa vez de forma mais… mundana e menos exclusiva. Disponível em qualquer hipermercado.

Fui presenteado com uma garrafa e tratei de ir descobrir o que havia de tão exclusivo. Encontrei um sabor bem parecido à Confraria (embora o rótulo diga que é de baixa fermentação, portanto lager), agradáveis 6% de álcool, mas com um diferencial, um sabor diferente que deve ser decorrente da tal maturação em carvalho. Fãs de cachaça talvez se sintam em casa tomando uma Oaken.

Carvalho esse que constitui o ponto central da campanha de marketing: nobreza associada à madeira.

Hoje, folheando a VEJA, encontro uma propaganda de página inteira no verso. A mesma história: “atendendo a pedidos, trouxemos uma nova edição”, etc. Se o final for o mesmo da Confraria, a Bohemia vai contar com mais um rótulo em uma família bastante interessante, não tão popularesca como a água mineral Skol, e nem tão sofisticada e inacessível que impeça o acesso dos cervejeiros em potencial.

Esse posicionamento da Bohemia como cerveja gourmet, com a competição de botecos, só vai contribuir para solidificar a cultura do lúpulo no país.

Bem vinda Oaken, seja de forma temporária ou permanente.

E com tudo isso, permanece a questão insolúvel: quando a AMBEV vai trazer de volta a Royal Ale, que eu não tive a oportunidade de experimentar, mas que deixou uma legião de fãs desamparados?

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The Freesound Project: som open source para todos

Não, este não é mais um post debatendo o futuro da música, gravadoras, pirataria, Lars Ulrich, etc. É um post sobre… som. Arquivos de som. Sound samples.

Durante a mixagem de Tudo Morre Ao Ser Pensado precisávamos de um som de cuíca. Onde achar isso? Nem o samba usa cuíca mais.

Eis que o open source vem nos socorrer.

The Freesound Project

The Freesound Project é um gigantesco banco de dados de sons de todo tipo. A idéia aqui é amostras de som, e não músicas. Quem tipo de som? Qualquer coisa. Desde a cuíca em questão até sons ferroviários, industriais, ventiladores, etc.

Ao entrar no site, de cara, já aparece o Random Sound of The Day. Também dá pra escolher um som aleatório no menu.

É possível buscar por tags, tocar o som desejado (uma vez ou em loop) e baixar o arquivo mediante um simples e rápido cadastro (login, email e senha), que também dá acesso ao fórum. Permite comentários, busca de usuários e até geotagging, se você quiser buscar um som de locomotiva russa, por exemplo.

O site é free (Creative Commons), aceita (e merece) doações e vende umas camisetas bem legais com o logo de ondas sonoras. Está em fase de reformulação de layout, afinal tudo precisa de layout novo, mesmo que não precise.

A melhor parte? Dá pra tocar vários resultados da busca simultaneamente e em loop. Quem conhece os valores supersimétricos já deve imaginar o que vamos fazer com essa possibilidade: um disco, é óbvio!

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Tudo Morre Ao Ser Pensado

Lembra do vídeo Betamax? Do mini-disc? Tancredo? E o Copersucar do Émerson?

Tantas foram as idéias que, assim que deram o primeiro sopro de vida, morreram. Algumas ainda estrebucharam um pouco, em estertores de agonia, como Gurgel, RPM. Outras, como o Esperanto, se recusam a morrer com dignidade, vivendo em uma espécie de limbo. Boa parte delas surge na nossa querida área de tecnologia, mas nem todas.

Estão todas lá, na capa de Tudo Morre Ao Ser Pensado. O título é outro mote antigo da banda, que foi se materializando e aglutinando todos estes sub-produtos do pensamento. Se eu ousei comparar o verso do Altar Quântico com o Somewhere In Time, o que dizer deste? Clique na capa e no verso para ampliar, e divirta-se procurando os produtos e idéias natimortos. Olhe com atenção: alguns não são tão óbvios.

Tudo Morre Ao Ser Pensado

Tudo Morre Ao Ser Pensado - verso

Tudo Morre também representa a morte da banda como foi concebida, mas não da sua essência: transformar tudo em som. É o último registro antes da chegada dos portugueses, que daria início à Fase dos Álbuns Brancos.

Tudo Morre Ao Ser Pensado: abre o álbum com um clima tenso de teclado, refletindo todo o risco de uma nova idéia. A perturbação só faz aumentar com o sax free e a bateria-ferroviária à Ayler. Garrafas chamam o mote, que é pronunciado com fúria, sepultando de vez as idéias.

Capoeira Superfluída: roda de capoeira supersimétrica.

Felicidade: base borbulhante e teclados esparsos.

SpaceSambá: samba-reason, com um ritmo meio bossa, cuíca open-source e uma letra com rima obsessiva.

Chegada Real: uma das mais pungentes e soberbas faixas da banda. Um ritmo rápido e constante serve de base para um toque triunfal que anuncia a chegada austera do soberano. Que pode ser um ovino ou um caprino. Fica a seu critério.

Astroblack: base e teclados que vão se transformando em um agudo tormento de frequências. Trilha sonora da aproximação e pouso de uma nave qualquer.

Brasil: faixa confusa, vários instrumentos tentando se acertar, sem nexo, sem direção, sem ordem, sem critério algum. Bem titulada.

Camocidade: base reason e um Camós discreto dão o tom para várias instâncias da transmissão de Portuguesa x Vila Nova pelo rádio, com eventual interferência de Jesus. Não há gols. Jogos de futebol às vezes também morrem ao ser pensados.

Hello Dolly: faixa confusa como são as idéias em fase de maturação. Tem de tudo aqui: bateria perdida, bateria invertida, teclados sem resolução, vocal grind. Morre subitamente após quase 6 minutos.

Baixe e ouça.

As fases branca e preta já foram resenhadas. Dando um salto quântisonórico, passemos ao período seguinte, em que predomina a evolução (aquela mesma, do sinhô Darwin).

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