Kraka Tachion

Kraka Tachion

Nos anos de 2002 e 2003 eu passava boa parte dos fins de semana e algumas noites fechado em um quarto. Nessa época o estúdio Arbória ainda estava sendo montado, não havia as paredes forradas com caixas de ovo, a enorme quantidade de instrumentos fabricados com sucata nem a gravação multitrack do Pro Tools. Só contávamos com o Sound Forge, uma mesa com meia dúzia de canais, alguns cabos e microfones. Nessa forja sônica, tudo era gravado de uma vez e isso era o que se obtinha. Se o baixo estourasse – o que acontecia com notável freqüência – ia ficar estourado.

Experimentar e gravar

Quase todo final de semana tinha função, e até mesmo durante a semana à noite. Trabalhávamos todos na mesma consultoria de informática na Berrini, saudosa empresa que não resistiu à ingerência de seus diretóres e pereceu. Por manter esse contato diário e trabalhar na mesma área, conseguíamos uma boa sintonia de idéias e troca de influências musicais e conceituais. De forma natural, o som era visto como código-fonte e estruturas de repetição.

Não havia ensaio propriamente dito: era entrar no estúdio, fazer uma rápida checagem dos instrumentos, ligar o Sound Forge e mandar ver. Nisso iam 15, 20, 30 minutos. Terminado, o arquivo .wav era salvo e ficava registrado. Pausa para um descanso rápido e… mais som! Fica fácil imaginar o volume de gravações que foi se acumulando ao longo dos anos. Haja gigabytes.

A cada semana íamos absorvendo influências as mais variadas: o puro brega (tanto o oitentista quanto o atual paraense), o grindcore, o punk mais tosco possível, o free-jazz (sem jihad), Sun Ra, forró das antigas (salve Negão dos oito baixos!). E Damião, claro. Uma interminável pesquisa de novos estilos, ritmos e influências. Quem descobria algo digno de nota levava isso às sessões e, se aprovado, passava a fazer parte da ampla gama de influências.

Ruído + música = som

Em meio a isso tudo, o Kraka foi tomando forma. Inicialmente, a própria banda se chamaria Kraka Tachion, mas depois do primeiro cisma que transformou o quarteto em trio o nome foi mudado, sem perder a referência à física. Kraka passou a significar uma filosofia sonora, mais do que apenas um disco.

Essa filosofia, moldada e polida a cada semana, está apoiada em 2 pilares: a absorção de influências citada acima e o conceito de som.  Procuramos ver a música – ocidental, métrica e afinada – como um subconjunto de algo maior: o som. Essa entidade soberana também engloba ruídos, modulação de ondas, microfonias, repetição por delay. E música. Tudo é passível de ser tocado, modulado, invocado. Se eu toco um jazz afinadinho em uma faixa, nada me impede de tocar um grind de 3 segundos na faixa seguinte. Não há nada que obrigue uma banda a tocar um único estilo, embora isso seja quase um dogma musical.

Por isso a página da discografia é chamada de Sonografia. E por isso é importante ouvir o disco todo. Com isso em mente, vamos à primeira audição. Baixe o álbum, abra no seu Winamp e clique no play.

  1. Fim – Faixa que abre o disco e a banda, onde uma solene pianola Hering faz o papel de arauto do que está por vir. The shape of sounds to come.
  2. Tionismo – Um pontiado de viola emulado por meio de guitarras, Tião Carreiro plugged.
  3. KR3 – Uma balada (?) executada com garrafas e uma percussão bem tranqüila. É uma pausa necessária para o que vem em seguida.
  4. Matéria – Aqui mostramos de forma pungente o significado de primeiro take. E também toda a nossa preocupação em tocar bem.
  5. V Amor – O V é na verdade o símbolo de raiz quadrada. Cordas dissonantes, garrafas, percussão, guitarra e um acalorado debate ao final. É uma boa mostra de como é experimentar com som.
  6. Borda – Volta a pianola fazendo duo com freqüências diversas.
  7. Unção – 7 camadas de glossolalia (orações em línguas). Há quem jure que se ouve o próprio R. R. Soares.
  8. Hypercubo – Concebida como uma orquestra de corvos sintetizados.
  9. Opus Chorume – Sinfonia em 14 movimentos da nossa antiga banda Chorume, que sucumbiu ao próprio conceito de ser anti-tudo e teve que ser encerrada.
  10. Obsessão – Uma assombração rítmica que se apossou da banda e foi exorcisada com uma invocação de proparoxítonas.
  11. Kafka Tachion – Bateria de teclado, camadas de sintetizadores e percussão criam o ambiente para uma reflexão sobre olhos, telas e resoluções.
  12. F(x) = x + 1 – Aqui a coisa é eletrônica. Uma tentativa de criar uma rave em Saturno.
  13. Simulasticidade – Uma pavê eletrônico feito com pianola e várias camadas de sintetizadores.
  14. Revelação Microfonal – Apresenta um conceito que se tornaria parte essencial do nosso som: o microfonal. É o parto de ondas sonoras arrancadas à força de um conjunto de pedais de guitarra, microfones baratos e amplificadores ruins. Como um animal sônico, essa combinação evoluiu ao longo do tempo até se tornar um instrumento completo: o pedaltron, com direito a partitura e linguagem própria.

Os ambientes são criados com modulação de onda via software e o inevitável teclado Casio (que às vezes pode ser Yamaha). Na época, não dispúnhamos de bateria, que era tocada no próprio teclado. A percussão era conseguida com tambores regionais, como a Caixa do Divino e o Tambor de Crioula – salve(m) o Maranhão! Havia também um bongô de péssima qualidade, que faz as vezes de caixa em Matéria. Sem falar no Reason e no Vaz, importantíssimos softwares de emulação de sintetizadores e que podem ser considerados membros da banda.

Não há letras propriamente ditas, mas poemas lidos e sonorizados. Estão todos no livro Phaneroscopia. E também pronunciamentos, como em Matéria, que surgiam em plena gravação como revelações instantâneas instanciadas pelo pajé sônico e que se tornariam parte integrante do processo supersimétrico.

Para apreciar, faça o download de Kraka Tachion.

Comentários no site são esperados e bem-vindos. E não há porque ter receio de dizer que achou ruim. Um comentário honesto é sempre preferível a um hipócrita “ah…legal”.

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