Este post é uma continuação de Iron Maiden, 1998: o anti-show e a ressureição.
Maiden In Rio, Eu In Casa
Em 2001 o Maiden foi escalado para o Rock In Rio 3, aquela aberração do empresário Roberto Medina, que posteriormente se transformou em uma piada geográfica. O problema é que essa seria a única data do Maiden no Brasil. Assim que isso foi divulgado eu sabia que não veria esse show ao vivo. Era coisa para 200 mil pessoas, e se eu já tinha achado ruim a visão do show no Anhembi, esse com certeza seria muito pior. Fora a palhaçada de “vigiar os violentos metaleiros” e diminuir a quantidade de ingressos nesse dia.
Tudo no Rock in Rio era desproporcional e o palco do Maiden era imenso. Eu preferiria ver a banda em um local menor, 10 a 20 mil pessoas. Mas isso no Brasil é impossível, por não haver local com essa estrutura. E mesmo se houvesse, seria necessário agendar 2 semanas para suprir a demanda. Mais uma vez, privilégio de quem nasceu acima do Equador.
O show foi excelente, mas foi apenas mais um show do Maiden. Valeu pela formação inusitada. No final fizeram uma “surpresa” tocando Run To The Hills. Entre aspas porque com a internet já se sabia na véspera dessa adição de última hora ao set list no show anterior. Não que eu não tenha aproveitado bastante, assistindo ao vivo pelo Multishow com uns amigos, todos devidamente alçados ao nível 7.
Há que se destacar a patética atuação dos “apresentadores” globais. Márcio Garcia cometeu heresia ao pronunciar “M.C. Brain”, como em M.C. do rap. Um mínimo de pesquisa, pelo amor de Baal!
O set-list foi pequeno, “apenas” 17 faixas. O Maiden sempre vai tendo esse problema com o passar do tempo: os set-lists nunca conseguem agradar totalmente, já que muita coisa precisa ser deixada de fora. Afinal, os caras não estão mais jovens, e se certas Sandiléias da vida dublaram, Bruce mandou ao vivo. Com algumas décadas a mais nas costas.
Finalmente, um show do Iron Maiden

Em 2002 o Maiden lança Dance of Death. Capa esquisita, disco quase impecável. Algumas faixas verdadeiramente conseguiam remeter ao Powerslave, como Montsegur. A faixa-título é Maiden puro. Supreendentemente de autoria de Janick Gers, que nunca conseguiu se encaixar 100% no jeito Maiden de tocar. Outra surpresa: Nicko McBrain finalmente assinava uma composição. Só faltava ele. Claro que sua recente conversão ao cristianismo transpareceu na letra, mas não se pode ter tudo. Paciência.
Dessa vez, a banda não cometeria o sacrilégio de se ausentar de Piratininga, privilegiando uma cidade que fez o que fez em 1996. Neste ano (turnê do X-Factor) o Maiden experimentou a inédita e lamentável situação de não voltar para o bis, porque o público no show do Rio simplesmente não pediu pela volta da banda. FAIL, cariocas, FAIL total! Tá certo que Blaze Bayley é duro de engolir, mas um pouco de respeito pelo legado dos caras não mata ninguém. Túmulo do rock? Nesse dia, foi.
A arena era o Pacaembu, e dessa vez eu iria determinado a ficar na frente. No dia, encontro alguns conhecidos no estádio e vou logo para a frente. Vejo que não vai ser fácil mas estou determinado. Eis que o show começa. Posso verdadeiramente ver os caras. Estou em um show do Iron Maiden. Quem se movimenta sem parar pelo palco não é um picolé de chuchu do metal. É Paul Bruce Dickinson.
Ao término das 2 primeiras músicas, algo inusitado. Eu tenho muitos bootlegs do Maiden, de várias épocas, ou seja, já “estive” em muitos shows, mesmo que só no áudio. E jamais vi (ouvi) o que aconteceu ali: Bruce preocupado, dando um nítido recado ao pessoal das primeiras filas para que parassem de tentar se matar. A coisa estava perigosa, gente se espremendo, um desespero injustificável. Ele tinha uma visão privilegiada e para ter falado aquilo, deve ter sido sério mesmo. Você podia ouvir a preocupação no tom de voz dele. Eu? Eu estava tentando me manter vivo, algumas fileiras atrás. Quase cheguei a pensar em sair dali, mas fiquei firme. Guerreiro do Metal.
Depois desse incidente, tudo transcorreu bem. As novas faixas foram sendo alternadas com clássicos. Pena que Two Minutes To Midnight foi removida, mas ouvir Bruce cantar Hallowed Be Thy Name, Brave New World, The Trooper, isso não tem preço. Até Lord of the Flies, do Blaze, ficou com outra cara. No refrão, ele cantava uma vez no registro grave original e a outra uma oitava acima. Isso, meus caros, é para quem pode.
Na época clássica o máximo que Bruce fazia em termos de inovação no palco era usar uma máscara durante Powerslave. Dessa vez incorporou até um figurino para cantar Paschendale, o épico militar da Segunda Guerra, vestido de soldado e com direito a capacete e barricadas no palco. Em um instante todos estávamos em solo europeu, em pleno teatro de operações. Bem, quase todos.
Uma cavalgadura chamada Régis Tadeu, que era editor de uma revista de guitarra e fazia a linha “gosto de polemizar”, escreveu que nessa hora o máximo que Bruce conseguiu foi ficar parecido com um “tripulante de baleeiro norueguês”. O que acontece com algumas pessoas depois que passam da quarta década de vida? Será que é inevitável tornar-se xarope e perder a capacidade de abstrair, tornar-se incapaz de vivenciar a suspensão de incredulidade? Espero sinceramente que não, porque para mim isso é característica de alguém que já morreu e não sabe.
Julgamento e condenação de Lars
Em dado momento, Bruce toma do microfone e se dirige ao público. Fala sobre estar no Brasil novamente e então diz a frase fatal, frisando bem as palavras:
When we say we’re going to São Paulo, we go to fucking São Paulo!
João Ramalho ficaria orgulhoso. Bastou essa frase para que alguns fãs puxassem um côro que, em poucos segundos, se transformou em um brado, gritado em uníssono por todo o estádio e ecoando pela zona oeste:
Ei, Metallica, vai tomar no cu! Ei Metallica, vai tomar no cu!
Explico: pouco tempo atrás, no final de 2000, haveria um show do Metallica no Brasil. Ocorre que Lars e cia preferiram cancelar as datas, alegando… stress, ou algo assim. Vejam vocês o que o excesso de dinheiro, a fama, os Porsches na garagem, a obsessão por desfilar em tribunais faz com algumas pessoas. Triste.
Ei, Metallica, vai tomar no cu! Ei Metallica, vai tomar no cu!
NON DVCOR, DVCO!
Enquanto a massa gritava, Bruce ria. É claro que devia saber o significado desse… mantra.
Mas para que tentar descrever com palavras? Um colega de trabalho teve acesso ao show gravado diretamente da mesa de som. Deguste aqui o momento.
Quem quiser o show completo, procure no Soulseek por “Death in Pacaembu”.
Iron Maiden’s Gonna Get Aaalll of You
Depois dessa cena quase pentecostal, só restava curtir o final do show e participar do sacramento final. Eis que se inicia a música Iron Maiden. Quem é fã da banda sabe que, no final dessa música (que costuma encerrar a primeira parte do show antes do bis), Bruce inseriu uma despedida que repete religiosamente, culminando com o “Iron Maiden’s gonna get all of you”. É claro que o fanfarrão Blaze Bayley não fazia isso – ainda bem. E é claro que Bruce retomou o que lhe era de direito. Nessa hora ele aponta para a platéia e Steve faz sua tradicional “metralhadora” no baixo. Eu passei anos vendo isso em vídeo, e agora acontecia diante de mim. Com direito ao próprio Eddie, em uma versão fantástica, gigantesco e também ele apontando. Apontando para mim, claro. Ao presenciar essa liturgia, considerei que finalmente tinha assistido a um show do Iron Maiden. Estava consumado.
Terminado o show, uma surpresa final. Enquanto o público dispersava, o som do estádio tocava “Always Think of The Bright Side of Life”. Fiquei imaginando quantos ali sabiam do que se tratava.
Perfeito. O único problema foi a rouquidão do dia seguinte.
Culpa do Metallica…
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