Iron Maiden, 1998: o quase-show e a redenção

O Erro

No final do ano de 1998 o Iron Maiden desembarcava em São Paulo para os últimos shows da tour do álbum Virtual XI, no estacionamento do Anhembi. Eu, fã que era (sou) e nunca tendo assistido a um show da banda, dessa vez fui. Só havia um problema: não era o Iron Maiden no palco, e sim uma pálida sombra da banda. Sim, a famigerada era Blaze.

Força, rapaz!
Blaze tentando…

Ocorre que, após a saída de Bruce Dickinson, Steve Harris cometeu o maior vacilo de sua vitoriosa carreira, chamando um sujeito insípido e sem nenhuma presença de palco para substituir aquele que era a própria encarnação da presença de palco. Sem falar que ambos têm registros vocais bem distintos e Blaze era incapaz de cantar as notas agudas que fizeram a fama do Bruce. Ou seja, desastre completo. Ao invés de abaixar uma oitava e tentar adaptar certos refrãos ao seu registro, o energúmeno tentava cantar de uma forma que não conseguia, e o resultado era um só: clássicos sistematicamente assassinados no palco.

Não vou julgar aqui as qualidades do sujeito, pois até gosto dos seus álbuns solo, mas a pessoa precisa ter o mínimo de auto-crítica para saber quando não deve fazer algo. Saulo já dizia: Tudo é lícito, mas nem tudo convém. Serve para Blaze e para o atual dublador do Homer.

Assim, fui ao show, mas a experiença foi longe de ser plena. Principalmente porque no imenso espaço do show acabei ficando lá atrás e só via pequenos pontos se movendo no palco. E pelo assassinato de clássicos mencionado acima.

Mal sabia eu que poucas semanas após esse quase-show o mundo ia virar do avesso. Fiquei sabendo, poucos dias depois, que havia presenciado um dos últimos shows da era Blaze. Lendo as notícias em uma internet que ainda dava os primeiros passos, descobri que o clima na banda estava pesado a ponto do sujeito se deslocar sozinho até o palco enquanto os demais iam em outro veículo. Alguns shows na Argentina e no Chile em seguida, e uma demissão sumária.

A Redenção

Dom Sebastião de volta
Dom Sebastião de volta

Só que isso era só o começo. Ninguém estava preparado para o que viria em seguida: uma foto no site da banda mostrava Nicko, Dave, Steve, Janick… Bruce e Adrian. Seis. Todos com garrafas de cerveja na mão, sorridentes. Steve não apenas consertou a bobagem que havia feito como consertou em grandioso estilo: trouxe o pacote completo, que estava funcionando tão bem na banda solo do Bruce: veio o piloto-escritor-esgrimista-cantor-radialista-diretor-historiador-etc mais Adrian Smith. Arrisco dizer que, dentre os fãs da banda, havia quem adotasse uma postura quase sebastianista, esperando que Bruce voltasse e trouxesse a redenção. Eu acho é que todos, em maior ou menor grau, tinham essa esperança.

Os fãs entraram em estado de euforia, tentando assimilar o que seria uma banda com 3 guitarras. Claro que apareceram os chatos de plantão pra dizer que era tudo por dinheiro. Um sonoro foda-se era suficiente para calá-los. Eu queria mais é que eles ganhassem rios de dinheiro contanto que recolocassem o Maiden no lugar que lhe era de direito: o olimpo (Adelino Nascimento também está lá, mas isso é outra história).

Fizeram até uma turnê de aquecimento da nova formação, com direito a Aces High na abertura. Infelizmente, só para os eleitos, ou seja, habitantes do primeiro mundo.

Três guitarras trariam a possibilidade única de executar ao vivo o que só é possível em estúdio, já que bandas de metal costumam gravar 3 ou até 4 guitarras sobrepostas em determinados trechos. Mas o que mais gerava expectativa nos fãs era quanto ao novo material em si: seria digno do antigo Maiden? Ou repetiria as composições esquisitas dos últimos discos? De uma coisa não conseguiram se livrar: os refrões com repetição interminável, mania que Steve pegou no Virtual XI e que não largou até hoje.

Fora isso, só alegria: o aguardado disco da nova formação veio, viu e venceu. Aliás, eles mesmos recusavam o termo reunião, e estavam certos: embora fosse um retorno de 2 membros, era uma formação inédita. Steve mais uma vez caprichou na temática: Brave New World. Se você não sabe do que se trata, é um livro. Que você deveria ler.

Me lembro de comentar sobre o disco em uma fila para o show de Paul D’ianno (outra boa história) e ouvir de um cara a seguinte crítica: “não gostei muito, achei muito clichê”. Ora, se a principal reclamação de todos era que a banda tinha abandonado o estilo próprio que a consagrou, como alguém poderia reclamar de um disco que lembrava esse estilo? Enfim, fiquei na minha. Algumas pessoas nunca estão satisfeitas. Na verdade é comum que o fã passe a ficar mais exigente com o tempo, mas tem gente que com a idade acaba se transfigurando em crítico e abrindo mão da condição de fã. Envelhecer torna fãs chatos? O que ganham com isso, eu desconheço.

Eu gostei do disco. Algumas faixas mais fracas, mas como repreender a faixa-título, ainda mais conhecendo a história?

Infelizmente não fui a esse show, que se deu no Rock in Rio de 2001. Mas o disco seguinte me reservava algo que eu achava que nunca iria conseguir presenciar: um verdadeiro show do Iron Maiden.

Conto sobre essa unção no post Iron Maiden, 2004: consagração nos campos de Piratininga.

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2 Responses to Iron Maiden, 1998: o quase-show e a redenção

  1. Pingback: Iron Maiden, 2004: consagração nos campos de Piratininga | Blog do Ronaldo

  2. Maiden Fã says:

    Na boa velho, até concordo com algumas coisas que vc escreveu porém o mais importante vc deixou de registrar.
    Após a passagem de Blaze Bayley pelo Iron, a banda ficou muito mais madura e pesada. Até mesmo as letras das musicas ficaram melhores.
    Blaze não teve uma boa passagem pelo Iron, é claro, substituir o melhor vocalista do mundo não é pra qualquer um. Mas vi com bons olhos sua passagem e deixou algumas marcas positivas.

    Abs!

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