Encarnação do Demônio: Josefel Zanatas vive!

Encarnação do Demônio

Quarenta anos.

Quase o tempo de uma ditadura cubana. Boa parte dos leitores desse blog não era nascida em 67. Nem mesmo o autor.

Duas semanas atrás eu e um seleto grupo de amigos nos dirigimos ao cinemark do Market Place para cumprir uma demanda. Para muita gente esse dia demorou vários anos, para mim – que só fui conhecer a obra há uns 5 anos – demorou menos. Para ele, 40 anos.

Finalmente José Mojica Marins concluiu sua trilogia, contando inclusive com verbas do governo do estado, afinal Pro Brasilia fiant eximia, certo?  Para a maioria, ele nunca passou de algo exótico e “trash”. Sendo brasileiro, claro que foi reconhecido apenas lá fora, elevado inclusive ao status de cult. Experimente contar aos colegas de trabalho que hoje à noite você vai ver o filme do Zé do Caixão no cinema. Vai receber olhares estranhos, como que dizendo: “Cara maluco esse”. Questão de opinião. Maluco, pra mim, é quem deixa de assistir a um filme apenas para satisfazer expectativas de escritório.

Não tendo o menor apreço pelo comportamento de manada, eu sempre soube apreciar o mojiquismo em toda a sua extensão, Doutor Bartolomeu incluso. Nos idos de 2003 fui apresentado aos 2 primeiros filmes da trilogia: À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, além de O Despertar da Besta. Foi grande a expectativa quando li a notícia de que o terceiro filme seria rodado.

Baratas, ganchos e a continuidade do sangue

Vamos direto ao ponto: Encarnação do Demônio é excelente. Claro que se você gosta de filmes “lindos” – descrição típica de dramas ao gosto do público feminino – talvez seja melhor evitar. Não que eu não considere várias cenas do filme como sendo lindas.

  • Pra começar, suspensão real.
  • Body Modification (a cena da boca sendo costurada pra valer, no Purgatório).
  • Crucificação.
  • Uma peculiar auto-antropofagia glútea.
  • Um rato ginecológico (sim, é exatamente isso que você está imaginando).
  • Uma das “candidatas” emerge do ventre de um legítimo cachaço suíno (o que pode ser mais black metal que isso?). A cena é real, sem truques.
  • Uma cena de sexo com chuva sangüínea que deixa a cena de Angel Heart no chinelo. Detalhe: Josefel caminha sobre o sangue.
  • Necrofilia.
  • E a já antológica cena das 3 mil baratas em um barril, onde Mojica enfia a cabeça da própria mulher. Hoje é sempre!

Em meio a esses cenários refinados, algumas participações ilustres. Zé Celso Martinez Corrêa interpreta um guia que conduz Josefel a um passeio pelo Purgatório. Nessa cena você descobre que o Purgatório é uma capa do Led Zeppelin (Houses of the Holy). Jesse Valadão é o policial com tapa-olho que, munido de fé em Santo Expedito, busca vingança contra o coveiro que o cegou. Expedito não ajudou: o personagem termina o filme empalado e o ator, morto. Há ainda o padre possesso que protagoniza a batalha final, gravada no Playcenter.

O que dizer da cena em que a mulher, prestes a acolher o rato supracitado, implora gritando “DEUS!”. Ao que o coveiro responde, austero: “Lamennnnnto, mas ele não foi convidado para a nossa fessssta”.

Ah, Mojica pode ter fama de maluco, mas não é bobo. O elenco de candidatas é exibido de forma generosa, ou em português claro: mulherada nua.

Outro detalhe bastante digno: baratas, aranhas, porco cachaço, ganchos, linha e agulha, rato. Tudo real, sem CGI.

Você deve estar se perguntando se Josefel conseguiu seu objetivo, gerar o filho da mulher perfeita, obtendo assim a imortalidade? Digamos que conseguiu muito mais do que isso.

Na sala (7, claro!) meia dúzia de pessoas, se tanto. Só os eleitos. Ao final da projeção, meia dúzia de aplausos. A unção foi plena.


Mojica no shopping: Sala 7, poltrona 7

Reparando uma injustiça

Talvez a cena  mais importante do filme seja a reparação de um sacrilégio que a censura obrigou Mojica a cometer em 67: na cena final de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, os queridos censores obrigaram o diretor a reescrever o texto. Na cena que foi ao ar, o coveiro se arrepende e reconhece a superioridade da cruz, do filho, do pai, aquela conversa toda. No original, ele blasfemaria e seria preso. Em Encarnação do Demônio, a injustiça foi reparada: através do recurso de flashback, a cena foi refeita, com fotografia da época e tudo, utilizando-se de um fã americano de Coffin Joe chamado Raymond Castille, que é quase um sósia do Mojica da época. Dito de outra maneira: perdeu, carolada!

Assista

Antes do filme tivemos o desgosto de ver o trailer de um novo filme de luta de rua (Never Back Down), um karatê kid moderno com trilha sonora de bandas Emo e rap, onde o cara tem que vencer o desafio, superar obstáculos e provar que é capaz, aquela bobagem previsível de sempre.

Você sempre vai ter duas opções:

  1. Continuar vendo apenas o cinemão ruim feito em linha de montagem, e sair da sala de projeção com a sensação de que poderia ter utilizado melhor aqueles 90 minutos da sua vida.
  2. Tentar um filme diferente de vez em quando pra ver como é.

Ao contrário do filme ruim do trailer, Mojica é o verdadeiro lutador, o sobrevivente. Sobreviveu à ditadura, que impediu que Encarnação fosse filmado na época, sobreviveu ao próprio país em que vive, à falta de recursos, à Santa Madre Igreja.

Vá ver. Nem que seja só para apreciar a mulherada. Se já estiver fora de cartaz, alugue ou baixe. Afinal, onde mais você teria a oportunidade de ver a cabeça de Jesse Valadão cravada em uma estaca?

Outras resenhas:

This entry was posted in Uncategorized and tagged , . Bookmark the permalink.

One Response to Encarnação do Demônio: Josefel Zanatas vive!

  1. Pingback: oXU mais oriXÁ é igual a… | Blog do Ronaldo

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>