Damião Experiença e o Planeta Lamma

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Quando ouvi Damião Experiença pela primeira vez, em 2001, não entendi nada. Hoje, 7 anos depois, continuo não entendendo absolutamente nada.

Como dizia o texto da primeira versão do site oficial, Damião não é para iniciantes. Dito de outra forma: Damião pode ser um choque para os que vêem a música de uma forma convencional, com rimas, métricas, harmonias, CDs com capa definida e LPs com lados A e B.

Damião Experiença é um artista marginal, esquecido – nunca sequer notado – pela mídia nessa terra de caetanismos e buarquismos. É ele quem aparece na imagem do cabeçalho deste blog numa montagem toscamente damiônica de várias capas sobrepostas. Como muitas outras coisas de alto valor artístico agregado, Damião me foi apresentado pelo profeta digitao.

Baiano de Portão, um distrito de Lauro de Freitas, Damião compõe, toca, canta e grava desde 74, após ter sido aposentado do cargo de operador de radar da Marinha devido a um acidente. Nesses 44 anos foram cerca de 34 discos, todos feitos com dinheiro próprio, originário de cafetinagem, segundo o próprio. Essa é apenas uma das muitas lendas que cercam essa figura mítica que criou o Planeta Lamma, um território imaginário de onde brotam suas canções.

Boa parte da obra de Damião é cantada no dialeto do Planeta Lamma, que ele mesmo criou e que apenas ele compreende. A outra parte, em português, gerou verdadeiros axiomas como “Quem tirou o selo, que leia a carta”, ou “Amor de mulher é dinheiro, ela me deixou duro, e eu não fui o primeiro”.

Capa Velha, Disco Novo

Quando falo que Damião gravou 34 discos, é preciso contextualizar. Trata-se do conceito damiônico de disco, onde um lado de um LP pode contar como um disco, e o outro lado como outro disco. As convenções de lado A e B foram deixadas de lado, e em seu lugar temos lado C, lado D, lado Queijo, lado Manteiga, e por aí vai. Sem falar que, com exceção dos primeiros 3 álbuns, as capas não fazem menção ao nome do disco, sendo assim aleatórias: você coloca o vinil que quiser na capa que quiser e estamos conversados. A única maneira de saber o conteúdo da bolacha é pelo rótulo.

Outra característica da obra damiônica é reaproveitar bases gravadas com outras letras, gerando assim uma nova música. Além disso, uma faixa que ocupa um lado inteiro do vinil é creditada no rótulo com 5 nomes, como se fossem 5 músicas.

Já está confuso? Isso é só o começo. Por toda a sua obra, Damião cultiva uma obsessão por Cuba, Fidel, Hitler, a URSS (“o russo tem a mente mais desenvolvida”), Isabelita Perón e a condenação ao aborto. Também se refere constantemente aos “bicho da cara preta, que matam de escopeta”, ou seja, à polícia que o prendia no passado.

Renascido na Internet

Conforme íamos mergulhando no universo do Planeta Lamma, surgiam muito mais dúvidas do que respostas (ainda hoje é assim). Para tentar organizar o que já se sabe, preservar e homenagear Damião neste Brasil governado pelo jabá e pelos modismos, decidimos que o mundo precisava conhecer Damião. Nascia o site que pretendia ser o portal damiônico: o Portão do Daminhão, criado seguindo a mesma estética das capas, com menus formados de letras recortadas de jornal.

If you build it, they will come? Nesse caso sim! Após alguns meses de quase nenhuma visitação, o Portão foi indexado pelo Google, e a coisa começou a acontecer: visitantes de todos os estados, dos pampas ao agreste, de SP ao Acre. E de vários países também. Percebemos que havia uma sede de informações sobre Damião. Um japonês queria lançá-lo no Japão, pedidos de entrevista e por aí vai.

Entusiasmados com a receptividade, íamos correndo atrás de mais informações, trocando emails, o que fosse possível para desvendar o mistério da discografia damiônica – até então não conhecíamos nem a metade.

Mas nada podia nos preparar para o que estava por vir: o contato pessoal com Damião em 2004, no Rio de Janeiro, onde vive até hoje.

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4 Responses to Damião Experiença e o Planeta Lamma

  1. Assisti hoje na reprise do programa “Descarga MTV” e só assim conheci o Daminhão. Não imaginava que ele seria daqui da Bahia, estava achando até que era de algum outro país.

  2. Pingback: A inesquecível visita a Damião Experiença | Blog do Ronaldo

  3. Ronaldo says:

    Eu acho que até devem existir Damiões em outros países. Damião, mais do que um músico, é um conceito.

  4. Pingback: Pagan Metal – A evolução do Black Metal | Blog do Ronaldo

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