Lembram quando eu divulguei aqui o livro Como Ler Jornais, de Janer Cristaldo, por ocasião do Estadão-gate? Quem leu as crônicas daquele ebook sobre fabricação de racismo pela imprensa não se surpreendeu nem um pouco com o caso Paula.
Começou como escândalo de racismo neonazista, passou pela condenação generalizada ao povo suíço – que acaba de votar pela ampliação dos acordos bilaterais com a União Européia –, adquiriu contornos de luta do oprimido terceiromundista contra o opressor europeu.
Os medalhões do colunismo nadaram de braçada no tema, cada qual tentando aparecer mais do que o colega. Brados de que “Paula somos todos nós”, evocações a Orwell, alusões ao próprio Holocausto. Sabe como é, precisa entregar a coluna, então vai qualquer asneira afetando indignação. Se estiver errado, justificam com um descarado “jornalismo é assim mesmo”, como o próprio Janer já ouviu de mais de um editor.
Divulgada a farsa da gravidez, os Clóvis, as Elianas e as Bárbaras viram que tinham quebrado a cara e se apressaram a tentar remendar as colunas. Mas sem dar o braço a torcer: através de uma lógica pra lá de tortuosa, concluem que se fosse verdade era culpa da Suíça, se fosse farsa… era culpa da Suíça também.
Como é difícil para um jornalista conjugar o verbo errar na primeira pessoa!
Janer, calejado no assunto, aguardou as investigações. Em seu blog, vem analisando diariamente essa performance lastimável do colunismo e republicando as histórias do Como Ler Jornais que retratam exatamente esse tipo de mancada da grande imprensa. Faço questão de listar aqui as histórias:
Esta última é a melhor: um funcionário da Anistia Internacional de SP forja o recebimento de pacotes-bomba e bilhetes com notas racistas para conseguir asilo na Europa.
Em todos esses casos, assim que a farsa caiu, silêncio nas redações. No máximo, uma notinha discreta. Todos ocorreram na era pré-internet. Hoje, é impossível a uma Folha ou a um Estadão silenciar e fingir que nada aconteceu.
Hoje, a macacada grita.
Excelente texto…
Feeds assinado!
valeu!