Este ano de 2008 foi prodigioso para os fãs brasileiros de free jazz. Se já não bastasse o massacre protagonizado por Peter Brötzmann, eis que o SESC Vila Mariana resolve trazer ninguém menos que Art Ensemble of Chicago. Ainda bem, porque neste caso a média de idade é elevada e um dos membros fundadores, Malachi Favors, já é falecido. Ou seja, não resta exatamente muito tempo para vê-los em ação.
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Tendo chegado cedo ao local e faltando mais de 2 horas para o show, decidimos fazer um aquecimento no Paralelo 12:27, bar próximo onde se serve algo chamado Cerveja, com C maiúsculo. Mais precisamente, chopp Eisenbahn. Após a comunhão do lúpulo, saímos à pé rumo ao SESC. Vejam: tinhamos acabado de tomar chopp de um nível que 99% dos brasileiros sequer sabem que existe e íamos assistir música do mesmo nível do chopp. Uma noite memorável.
Dessa vez fomos em uma horda de meia dúzia, sendo que um deles seria iniciado no free ao vivo.
Bengala, bateria, artrite, saxofone
Art Ensemble of Chicago é um dos remanescentes do free jazz, estilo que teve o seu auge há 4 décadas. Portanto, os músicos são todos sexagenários, o que faz com que o show tenha uma dinâmica mais… lenta, por assim dizer.
Assim que entraram no palco e se posicionaram, voltaram-se todos para o lado direito e assim permaneceram por quase um minuto. Na direção de Meca.
O baterista Don Moye entrou de bengala, e ao passar das congas para o kit de bateria, ia se arrastando vagarosamente. O que não o impediu de conduzir bastante bem o ritmo, alternando com momentos da mais pura quietude e contemplação (durante os solos dos colegas) e ataques pontilhistas diversos aos pratos e tons.
Don usava vestes africanas. Isso foi o máximo de caracterização usado no show. Não usou pintura tribal como antigamente. Também não foi trazido o show completo com dúzias de instrumentos musicais pouco convencionais. Isso fica reservado para os europeus. Para nós, ter o show aqui já está de bom tamanho.
O trompetista Leo Smith, músico convidado, lembrava o próprio Daminhão visualmente falando. Quando não tocava, agachava-se e ficava também ele em estado contemplativo.
O baixista Jaribu Shahid, como não poderia deixar de ser, rendeu-se várias vezes ao baixismo, fazendo incursões à dimensão própria dos que tocam o instrumento. Também executou um conjunto de sinos e sinos tibetanos.
Roscoe Mitchell. Aqui estamos falando de um dos grandes expoentes do saxofone e um dos sobreviventes do free jazz, tocou inclusive com Albert Ayler. Aos 68 anos, está em plena forma. Por várias vezes durante o show sentava-se em sua cadeira e assumia uma postura austera e alheia a tudo e a todos. Parecia cochilar. Em seguida, voltava e continuava.
Show No Mercy
Não, não estou me referindo ao clássico disco do Slayer, e sim a uma performance de Roscoe Mitchell que acabou sendo responsável por aquele momento já clássico dos shows de free, que eu chamo de a purificação da audiência.
Como já expliquei na resenha do Brötzmann, muita gente vai esse tipo de show sem ter a menor idéia do que vai ouvir. Lêem as descrições do panfleto na bilheteria, sempre vagas, e acabam achando “cool”. Novamente eu insisto: basta 2 minutos de pesquisa no You Tube. Mas nem a esse trabalho se dão. Então, quando são confrontados com a realidade sonora, não agüentam. Ora, se não agüentam, bebam leite. Por que vieram?
Porque quase sempre o sujeito leva a namorada/acompanhante/escort ou sei lá o quê para tirar onda de “descolado”. Só o que consegue é fazer com que a mocinha tenha o trabalho de descolar o traseiro do assento e ir embora no meio da apresentação. Aconteceu ontem: um dos membros da nossa horda disse depois ter ouvido na fileira de trás a seguinte frase: “Eu te avisei que era assim”.
Roscoe, por sua vez, não teve qualquer misericórdia. Após um breve diálogo entre baixo e sax, ele começou um solo utilizando a técnica de respiração contínua (ou circular), que permite que o músico toque instrumentos de sopro sem pausas para inspirar. Ou seja, o sax literalmente não pára. A coisa durou mais de 10 minutos! Foi o suficiente para provocar um verdadeiro êxodo do lado esquerdo da platéia, uma dúzia de pessoas se retirando ao mesmo tempo.
Eu só ia acompanhando com a visão periférica e, claro, me divertindo. O nosso amigo que estava sendo iniciado no free ao vivo se espantou com esse fato e perguntou se as pessoas que saiam não sabiam o que tinham ido ouvir. Explicamos como funcionava.
Aliás, ele conseguiu realizar a proeza de dormir em uma parte da apresentação. Me lembrou o próprio Nelson Piquet no grid de largada.
Uma grande noite.
Abaixo, trecho de uma apresentação em Paris em 2001. Dá pra ter uma idéia do que é o tormento do sax em respiração circular. Para ouvir mais, visite o Last.FM.
Mais uma vez, só me resta desejar vida longa e barulhenta a essa nobre arte.

Então… eu estava lá.
Você acha possível que alguém tenha o setlist do show? Os nomes das… músicas?
Saudações.
Talvez o próprio SESC tenha, mas acho pouco provável.