Rogerio Skylab no Centro Cultural São Paulo – Skylab X

O último suspiro. Último show da série Skylab em São Paulo. Dois suspiros, na verdade: sábado e domingo.

O único show que eu havia assistido até semana passada tinha sido o do lançamento do DVD, em 2009. Nessa ocasião o set list foi sido um pouco diferente do show de gravação do DVD, com várias músicas dos novos projetos (Orquestra Zé Felipe e Skygirls), e muita coisa que eu queria ouvir foi deixada de lado. Dessa vez, foi exatamente como eu esperava: repertório variado sem aquelas escolhas óbvias, músicas das quais o próprio Skylab já vem querendo se distanciar um pouco, mas que parte do público insiste em trazer de volta.

Falo dos 2 primeiros discos. Muita gente estacionou no Skylab II e não consegue sair dali (possível referência do novo vídeo, “Eu não consigo sair daqui“?). Geralmente é o pessoal que insiste em colar o infame rótulo trash na testa do músico. Insisto: o diagnóstico aqui é preguiça. A obra é muito mais vasta do que o II, diria que começa mesmo no III. Basta ouvir.

O set list passou por quase todos os discos. Várias das minhas favoritas, como Dedo, Língua, Cu e Boceta, Num Banco da Praça, Fátima Bernardes Experiência e Herbert Vianna. E dessa vez ele limou Matador de Passarinho, para alívio de boa parte dos fãs, incluíndo este que vos escreve.

Sábado

No sábado cheguei um pouco em cima da hora e acabei ficando na parte de cima, da mesma forma que no show de 2009. Boa visibilidade, mas faltava a proximidade do palco.

Antes de entrar, ainda pude ver a passagem de som: Skylab cantava Eu Roubei a Gravata? e 2 pessoas chamavam atenção: uma mulher com traje gótico-futurista fazia uma coreografia e repetia uma variação do refrão e um cara fazia efeitos eletrônicos meio espaciais em um Moog. Pelo jeito seriam os convidados da noite. A outra novidade era a baixista Elisa, do Skygirls.

Skylab e banda passando o som

Começa o show e o público pede Câncer no Cu aos berros. Em vão. Outros pedem Glóoooria Maria, esses foram atendidos. A abertura foi com Corpo e Membro Sem Cabeça e logo em seguida já emendaram o mantra Dedo, Língua, Cu e Boceta. Essa é uma das minhas favoritas e às vezes costumo ouvir em loop por tempo indeterminado. Outras vezes faço um pavê de 2 ou 3 camadas com essa faixa. Recomendo.

Segue o show. Duas faixas da Orquestra Zé Felipe: Boceta Dominante ou Dominada e Tem Cigarro Aí? Ambas funcionam muito bem ao vivo, especialmente a segunda: já faz parte da execução o público atirar cigarros no palco. Matadouro das Almas dessa vez não teve a faca: ele atacou a vítima com uma baqueta. Na comunidade do Orkut especulações sobre uma “nova diretoria” no CCSP que teria barrado a faca. Mas não chegou a ser um problema, já que a grande performance da noite se daria em O Corvo: a cenoura, já vista na entrevista ao Jô Soares.

Falando na cenoura, achei que a performance no Jô ficou até melhor do que no show, onde ele ficou chupando a cenoura naquela já característica simulação. No Jô, provavelmente para adequar ao padrão Globo, ele se limitou a morder e mastigar a cenoura, comendo com olhar fixo e ensandecido. Achei que ficou bem mais a cara da música.

Então, chega a hora da gravata e Skylab chama seus 2 convidados: a menina era Karina Alexandrino, artista cearense que ele ouviu, gostou e convidou para fazer a performance. O tecladista era Astronauta Pinguim, que tocou com Júpiter Maçã e tem trabalho próprio em uma linha que lembra bastante os microfonais do Supersimetria. Aproveitaram para gravar um vídeo durante a apresentação.

Pra encerrar, como já vinha acontecendo em outros shows, tocaram Eu e Minha Ex, do próprio Júpiter Maçã. Banda afiada como sempre e Elisa com ótima presença de palco.

Terminado o show, palco sujo de cenoura e fãs disputando a parte que não foi comida. Vou até o stand comprar o Skylab X e o livro e desço até o camarim para pegar autógrafo no livro. Me apresento e Rogério parabeniza a iniciativa do Portão do Daminhão e elogia o próprio Supersimetria. Registro o momento e a foto, claro, sai fora de foco, como aquela tirada no show conceitual do Supersimetria.

No camarim com Rogerio Skylab

Parece que é minha sina sair em fotos desfocadas, começo a ver isso como uma estética própria. Não tem o menor problema, o que vale é o registro e até que o efeito da foto ficou interessante. Para fotos de verdade do show, veja o Flickr de Edu Guimarães e Bel Gasparotto.

Rogério é extremamente simpático e acessível, contrastando com a imagem de maluco e esquisito que inevitavelmente se faz dele, principalmente por quem só ouve o som de passagem ou só pesca alguns momentos, como a explosiva e hilária declaração contra as auto-biografias no Programa do Jô. Não é raro artistas de grande nome venderem uma imagem de sorrisos e, no contato pessoal, revelarem escrotidão infinta. Que cada um tire a conclusão que quiser, ou puder.

Domingo

Domingo não vacilei: cheguei uma hora antes e garanti lugar na frente. É onde fica o pessoal mais participativo, digamos assim, durante Carrocinha de Cachorro Quente. A única diferença foi o acréscimo de Motosserra, homenagem ao Dia dos Namorados. O resto do set list foi idêntico. Nova gravação durante Eu Roubei a Gravata? e a cenoura em ação novamente. Antes de anunciar a última faixa, Rogério cita a quase obrigatoriedade do Bis em shows e diz que nunca fez isso e nunca vai fazer. Mas consta que fez no Rio. Encerra novamente com Eu e Minha Ex.

Ainda tento comprar outros discos da série, mas quando chego ao stand vejo que esgotou tudo. Fico ligeiramente decepcionado e ao mesmo tempo bastante feliz por ver que o público botou mesmo a mão no bolso.

Agora é ler o livro, aguardar o vídeo gravado nos shows e torcer para que Skylab e suas bandas continuem fazendo música.

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Dia Mundial do Rock

Para o Dia Mundial do Rock 2011, mantendo a tradição do blog, eis o vídeo de You Suffer, do Napalm Death, em uma releitura. Estrelando Hans Moleman:

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Options for the Architecture of the Species

Options for the Architecture of the Species

O tempo é elástico e é fácil pular de 2005 para 2007 em busca de material para uma resenha que foi esboçada em 2009 e que só viu a luz do dia em 2011. Parece muito tempo? Nesse breve instante Saturno não completou nem meia volta, e o ex-planeta Plutão mal saiu do lugar.  O que segue vem logo depois das fases Branca e Preta.

Options for the Architecture of the Species é mais um disco solo de Rob Ranches, com material de 2005, de uma fase bastante voltada à experiença eletrônica.

Já aviso que esse é um disco eletrônico. Portanto, guerrilheiros da guitarra fiquem longe ou abracem o capeta de vez.

Eletrônico, nesse caso, não significa cair na monotonia do bate-estaca. Portanto, eventuais guerrilheiros das pistas podem esquecer, não é um disco dançante. A menos que você dance com ritmos que chegam e somem repentinamente, deixando o ouvinte em um vazio que é preenchido logo em seguida com frases disformes e loops em diversos graus de obsessão repetitiva.

Options tem ritmo (e ritimo), loops em profusão, de[s(in)]formação e a ausência de microfonais, que foram colocados em suspensão sonora na época. Sem listar todas as 14 faixas, eis aqui impressões sobre as que se destacam:

O eletrônico “raiz” acontece em Som[Ar]{ter[ia(l)]} e em menor escala em Remedy, faixa que abre o disco.

O tema meio melancólico de Forja é repetido em de[s(in)]formação com nova roupagem. Em ElectroZion um pulso onipresente marca aparições breves de loops minimalistas. E se em Kill Bill é possível perceber uma levada quase-bossa, Fornalha traz um sintetizador de fraseado rápido, quase virtuoso. Chega a lembrar Van Halen. Indiferentes a tudo isso, os loops rodam a obsessão de fundo.

Se conseguir chegar até aqui, experimente Os lamentos de Lacan: loops robóticos com um timbre sujo e aquela sensação de que alguma coisa foi configurada errado. Dá a impressão de um som fora de foco. Sinestesia pura.

Olinda apresenta um trompete que passeia sobre uma base meio preguiçosa. Se ficarmos exclusivamente no campo damiônico de definição de estilos, este poderia ser facilmente classificado como um frevo.

A capa faz menção à verdadeira dinâmica evolutiva. Por causa daquela famosa imagem do macaco que vai se levantando e se torna Homo sapiens ereto, existe uma tendência popular a acreditar que a evolução é linear, quando, na verdade, é ramificada. Razão pela qual a infame pergunta “Se a evolução é verdade, por que ainda existem macacos?” é completamente equivocada e um sinal claro de alguém que não faz a menor ideia do que seja a Teoria da Evolução.

Baixe e ouça.

Em seguida, vamos visitar uma tecelagem de som. Prometo que será antes de 2013…

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Todos os olhos (Tom Zé) – A capa que foi sem nunca ter sido

Cai um mito. Na verdade, já caiu há muito tempo, mas ainda persiste por aí. Até uns dias atrás eu também acreditava. Acabei de descobrir e não posso deixar de divulgar.

Trata-se da verdade sobre a histórica capa de Todos os Olhos (1973), quarto disco de Tom Zé.

 

Todos os Olhos (Tom Zé)

 

A ideia da capa foi sugerida a Tom Zé por Décio Pignatari, poeta vanguardista e amigo do músico. A ideia era afrontar o governo militar e driblar a censura. E qual era essa ideia? Simples: a capa – que deveria aparentar um olho – seria na verdade uma bola de gude sobre um cu, também conhecido como ânus. É o que parece, mas não é o que foi feito.

Na verdade, quase foi. A foto chegou a ser feita, mas o resultado final ficou óbvio demais para enganar os censores. A solução encontrada foi fotografar a bola de gude nos lábios da mesma modelo que, apertados, lembram bem a superfície em que a bola deveria repousar. Eis que o cu que deveria imitar um olho se torna uma boca que imita o cu. E ambos remetem ao olho.

Deu tão certo que enganou o mundo inteiro, inclusive muitos blogs e leitores que, mesmo depois de informados sobre a verdadeira história, continuam afirmando ser a capa aquilo que não é.

Enganou inclusive o próprio Tom Zé! Durante muito tempo ele perpetuou o mito, até ser informado da verdade sobre a capa. Deu risada:

Hahaha! Então me enganaram esse tempo todo! F.d.p., me enganaram! Hahaha!

O mito foi desvendado em uma reportagem da revista Carta Capital, ao que parece de 2005.  A história da complicada sessão de fotos com o fotógrafo Reinaldo Moraes e sua namorada, da reação de Tom Zé ao descobrir a verdade e da recusa veemente de Décio Pignatari em falar hoje sobre o assunto pode ser lida na íntegra no Substantivo Plural.

No fim, a capa de Todos os Olhos deu mais certo do que se esperava: parece um olho, que parece um cu, que na verdade é uma boca, que parece um cu, que lembra um olho.

Dentro da capa, existe um disco

OK, a história da capa é legal, eu adoro capas, mas já deu o que tinha que dar. Recomendo que se faça com o disco aquilo que é o seu propósito. Não deixe de ouvir, porque ele não merece ser lembrado apenas pela capa. Pode ser avistado vagando por blogs de música como o Mopho Discos ou no Soulseek.

Não é exatamente uma audição fácil. Mesmo tendo um samba bem audível (Augusta, Angélica e Consolação) não tem aquelas melodiazinhas prontas para o rádio. É música experimental da melhor espécie. Ou seja, é estranho, não convencional, isento de fórmulas testadas e aprovadas. É um teste, um experimento de laboratório. Não por acaso vendeu pouco. O grande público não é dado a ciência.

Já vale a audição só por Complexo de Épico, a faixa que abre e encerra o disco (em versão estendida) e que dá uma senhora alfinetada nos medalhões da MPB que se levam a sério demais. Também não posso deixar de citar Brigitte Bardot, que lembra bastante Maria Bethânia, de Rogerio Skylab (o correto seria o inverso, mas fui conhecer Brigitte depois). Aliás, em Cu e Boca, Skylab sentencia: “Cu e Boca é tudo a mesma coisa”. Suspeito que ele ouviu bastante o disco.

E leia a resenha de Todos os Olhos no blog Música Estranha e Boa, descoberto por mim justamente quando pesquisava para este texto e já recomendado.

 

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Blog recomendado: Free Form Free Jazz

Eu achava que conhecia alguma coisa da música livre, só porque ouvia The Olatunji Concert, um pouco de Sun Ra e outro tanto de Peter Brötzmann. Até conhecer o blog Free Form Free Jazz, publicado pelo jornalista Fabrício Vieira.

Free Form Free Jazz

O Free Form, como é mais comumente conhecido, é hoje a grande referência em som livre no Brasil. Pensando bem, som livre é um ótimo nome p/ um selo de free, pena que já foi (mal) usado.

Som Livre, aqui, entenda-se principalmente como free-jazz, que é a tônica do blog. Mas está longe de ser a única vertente. O noise, principalmente o japonês, é bem representado. Música erudita contemporânea também. Foi lá que conheci nomes da envergadura de Masayuki Takayanagi e Max Gustafson.

O blog ataca em 2 frentes: resenhas e agenda de shows.

Nas resenhas, discos famosos ou nem tanto – principalmente os nem tanto. Na maior parte das vezes, o próprio álbum é disponibilizado. Vez por outra, um livro ou DVD, mas o forte mesmo é a discografia.

A agenda de shows já me fez descobrir coisas como Hans Koch e Eke Trio tocando bem perto de casa, no Centro Cultural São Paulo. Não satisfeito em divulgar o que precisa ser divulgado, Fabrício faz questão de publicar sempre uma mini-biografia de quem está para se apresentar por aqui. Foi assim com Pharoah Sanders e o novo quarteto de Ivo Perelman – aliás o blog abre os trabalhos com um post exatamente sobre Ivo. E não foi diferente com Ornette Coleman, que tocou no mesmo palco do SESC Pinheiros onde o Filho caminhou. Esse, infelizmente, não pude conferir. Ainda vou me arrepender disso.

Já o show de Ken Vandermark, também devidamente divulgado no blog, não perdi. Nem poderia, tendo acontecido na já tradicional Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo.

Entrevistas com gente do ramo também não faltam, inclusive do free som local. Gente do ABC por exemplo, que, brasileiros que somos, fazemos questão de ignorar. A série sobre free argentino é outro exemplo do quanto existe de som para ser explorado mais perto do que se imagina.

Sobrou até para nós: além de uma breve resenha de Shishogan logo no segundo post, recentemente rolou uma entrevista com o Supersimetria.

 

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Rogério Skylab – Loucura e método na trajetória do músico cadáver

Rogério SkylabMeu primeiro contato com Rogério Skylab foi em 2002, durante um ensaio do Supersimetria. O baixista apresentou o então recém-gravado Skylab II Ao Vivo, até hoje o mais famoso álbum da série. Digna de nota era a faixa Jesus, de letra bastante peculiar. Depois de ouvir o disco inteiro concluí que todas as letras eram bastante peculiares. Ouvindo Naquela Noite me lembrei de já ter visto um cara meio excêntrico cantar aquilo … no Jô. Ainda não sabia da forte ligação entre ambos.

Acabei deixando de lado e só fui relembrar mais de 1 ano depois. Foi durante o recesso da banda. Um belo dia fui checar o email de contato do Portão do Daminhão – que ainda era pouco conhecido – e vi várias mensagens incluindo uma de… Skylab!

Naqueles dias o Portão ainda não aparecia na busca do Google. Nesse dia o Google resolveu indexar o site que ganhou visibilidade súbita e acessos de todo o planeta. Skylab viu e mandou o email parabenizando a iniciativa. Aquilo nos motivou não só a retomar a banda como acabou catalizando o processo que levou à criação da 2ª versão do Portão e à histórica viagem ao Planeta Lamma. Valeu, Sky!

Descobrindo o bancário – músico – escritor – cadáver

Eu já sabia que ele tinha um disco dedicado a Damião Experiença, o Skylab III. Mas ainda não conhecia o som e a obra propriamente ditos. Fui ao site oficial e lá mesmo achei um link para baixar a obra. Depois disso, foi aquele trabalho de sempre quando descubro uma banda boa: pesquisar, descobrir que é ou quem são. Nesse caso, não foi tão simples.

Descobri a dificuldade de tentar definir Rogério Skylab. Seria um escritor, poeta, músico? Ou seria apenas Rogério Tolomei Teixeira, o funcionário do Banco do Brasil que gerenciava uma carreira artística paralela nas madrugadas em claro e em fatias de tempo “roubadas ao trabalho”, como ele mesmo revela?

Descobri que ele faz música por compulsão. Que não se tornou músico para pegar a mulherada ou ficar rico, e sim porque era algo inevitável. Que compõe de forma mental, instantânea, alimentado por fragmentos do cotidiano, como uma carrocinha de cachorro-quente ou uma viagem de metrô. Que a ideia pode tomar vários rumos: virar música, soneto ou crônica. E que a loucura que ele capta nesses pedaços do dia-a-dia é siste(mate)maticamente transformada em som. Nada é acidental.

Série Skylab

A série Skylab

Descobri que ele assumiu a identidade de cadáver disfarçado de músico, história contada na faixa Inferno, do volume III. Gosta de publicar a própria nota de falecimento e já “morreu” algumas vezes ao fim de shows, numa performance em que desaba no chão e lá permanece indefinidamente enquanto os roadies desmontam o equipamento, testando a capacidade de incredulidade dos que ficam na plateia para ver até onde vai. Não por acaso, é a capa do nono disco.

Descobri que é inútil tentar ofender ou criticar Skylab de forma gratuita: ele vai reciclar a agressão e devolvê-la recheada de notas e sons. É famoso o episódio em que um jornalista de Brasília escreveu que “Rogério Skylab desafina mais do que Herbert Vianna sem tutano”. Foi o que bastou para que Skylab pegasse o comentário e… transformasse em uma música! Trata-se de Herbert Vianna, que permanece como sobra de estúdio e pode ser apreciada em versão ao vivo na rádio do site.

Descobri que obras elevadas como Fátima Bernardes Experiência, Câncer no Cu e a supra-citada Herbert Vianna jamais verão a luz do dia como parte da discografia oficial porque Skylab não tem dinheiro para pagar advogado, embora não se furte de compor sobre figuras públicas. É a compulsão falando mais alto.

E por falar em figuras públicas, descobri o quanto a obra de um músico “alienado” pode ser infinitamente mais interessante do que bandinhas que querem mudar o mundo. Skylab prefere estrangular freiras, serrar a namorada e compor uma ode a um urubu do que fazer crítica social. Ainda bem!

Finalmente, descobri paralelos com o próprio Damião: obra centrada na própria imagem, e a evidente dificuldade em ser levado a sério. Dificuldade essa que ele conhece bem; tanto que o título de seu primeiro disco é Fora da Grei.

Rogério Skylab Fora da Grei

Fora da Grei: raro e só em vinil

Nesse ponto, entra Jô Soares. Alguém da produção do programa um dia apresentou um disco, ele gostou e chamou para entrevista. Era o início de uma série de entrevistas que passaram a fazer parte do processo de lançamento de cada disco. O problema é que o público do Jô é incapaz de fazer qualquer outra coisa a não ser rir. De qualquer coisa. E quando Skylab, durante a entrevista, anuncia compenetrado que vai executar a música Cadê meu pau?, a plateia amestrada cai no riso. Ele não gosta, preferia que tentassem absorver a música. Mas é pedir demais. Então ele se contenta com o que dá pra conseguir: a divulgação no Jô. Que não é pouca coisa.

Skylab e Jô Soares

Skylab e Jô Soares

Quase todas as entrevistas estão no canal de Skylab no YouTube. Lá ele fala sobre o Banco do Brasil, sobre a importância de ter um trabalho fixo além da arte, sobre seu sagrado horário das madrugadas e sobre a crucial questão da série Skylab.

A loucura matemática transformada em tradição musical

Ele sempre afirmou que a série Skylab seria limitada e que terminaria no décimo volume. Ao explicar o motivo, aponta as estrelas da MPB que prolongam carreiras desnecessariamente e cita a sabedoria de Pelé, que parou no auge. Todos protestam, querem mais.

Os discos de Skylab se tornaram uma tradição entre os que apreciam música não convencional. Além do disco, fazem parte do “protocolo” a entrevista no Jô e o show de lançamento no Centro Cultural São Paulo. Diga-se de passagem, São Paulo parece ter uma afinidade especial com sua obra, e ele faz questão de salientar isso. O problema é que Skylab deixou todo mundo mal acostumado e ninguém quer o fim da série. Mas ele é taxativo.

Isso não significa o fim do músico, que continua gravando. É apenas o fim da série Skylab. Confira os álbuns Skygirls, gravado com uma banda feminina e Rogério Skylab & Orquestra Zé Felipe, com o baixista do Zumbi do Mato.

O que já vem acontecendo é a maior ênfase na literatura: Sky tem um livro de sonetos (Debaixo das Rodas de um Automóvel) e o blog Godard City, onde publica muita coisa interessante e divaga sobre sua paixão arrebatadora, o Fluminense. Lá ele simulou a própria nota de falecimento por duas vezes, e lamentou a baixíssima repercussão.

O último suspiro do cadáver

Há 3 anos que moro a menos de 200 metros do Centro Cultural. Infelizmente vacilei e perdi o show de gravação do CD e DVD Skylab IX. Mas fui ao show de lançamento do DVD, em que ele cantou várias músicas dos outros projetos. Ver Skylab no palco é algo necessário, sem o qual o entendimento e a absorção da obra ficam incompletos.

Skylab IX DVD

Cena do DVD Skylab IX

Nos dias 11 e 12 de junho, Rogério Skylab pisa novamente no palco da Sala Adoniran Barbosa no Centro Cultural São Paulo para apresentar o derradeiro ato, Skylab X. Custa só 20 reais e é obrigatório para quem quiser entender minimamente a coisa toda.

Pra finalizar, duas sugestões:

1 – Se quiser experimentar Skylab, siga as mesmas recomendações que faço sobre Damião e música experimental de modo geral: esqueça as opiniões, ignore a mídia. O tom é sempre meio condescendente. No caso de Skylab, o rótulo carimbado em todos os artigos é trash, palavrinha fácil e famigerada que costuma habitar o teclado de jornalista preguiçoso. Ouça.

Só você pode concluir o que é Skylab.

2 – Se gostar do resultado, ponha a mão no bolso: discos, DVD e livro são vendidos depois do show e no site. Skylab não vê problema nos downloads, mas se há um artista que merece o investimento, é o Matador de Passarinho.

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A cozinha vegetariana satânica do Vegan Black Metal Chef

O movimento vegan – vegano, em português – é a mais radical forma de vegetarianismo: não admite o consumo de nada que tenha origem animal, incluíndo leite e ovos. É também o lado mais militante, apelando para dilemas éticos e morais resultantes do abate de animais, em vez de argumentar com base em aspectos puramente nutricionais para converter os infieis. Por essas e outras, dá a impressão que vegans são extremamente chatos. E são.

Mas há exceções, como o americano Brian Manowitz, de Orlando, Flórida. Ele resolveu unir suas 2 paixões: veganismo e música. O resultado? Um inusitado e bastante divertido Chef Vegan Black Metal!

A primeira receita estourou no YouTube, quase 1 milhão de visualizações. E não poderia ser de outra forma, não dá pra ficar indiferente. Mesmo quem não curte a dieta vai curtir o vídeo.

Brian grava suas receitas devidamente paramentado como um legítimo guerreiro do metal negro, com spikes, corpse painting e uma faca altamente estilizada. A receita é cantada em cima de uma base composta e gravada por ele mesmo. Lembra bastante Immortal, o que por si só já é um elogio.

Ele não perde a chance de tentar evangelizar os leitores de seu blog, claro. Mas sabe que boa parte vai curtir mesmo é o resultado final inusitado. Tanto é assim que disponibiliza o áudio das receitas para download em mp3, sabendo que muita gente vai querer mesmo é o som. E assim vai conquistando fãs nas 2 frentes: gastronomia e som.

Assista até o fim e não perca o ingrediente final, segredo da receita.

Eu vou continuar comengo frango, peixe ou um filé, mas nem por isso vou deixar de curtir as receitas do chef black metal, quem sabe até arriscar preparar uma.

Só não sei se vou usar o corpse painting.

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1906 Reserva Especial – A Espanha tem cerveja

Ser descendente de espanhol não costuma ser algo que me entusiasme. Fernando Alonso, touradas e a festa de São Firmino em Pamplona são só alguns exemplos.

Mas, de vez em quando, a gente se surpreende. Neste caso é a cervejaria Hijos de Rivera, que produz a Estrella de Galicia, uma pilsen como qualquer outra.

Mas a cerveja que me chamou a atenção é a 1906 Reserva Especial. O nome remete ao ano de fundação da cervejaria. A 1906 é uma Vienna Lager, uma pilsen com coloração meio acobreada, bonita no copo.

1906 Reserva Especial

E não é só a beleza: o sabor é pronunciado e amargo, com predomínio de álcool. Ela permanece por um bom tempo, com retrogosto bem alcoólico. São 6,5%, teor raro de ser encontrado em lagers.

O curioso é que ela leva milho na composição, e assume isto! Não é como as pilsen de grandes marcas por aqui, que escondem o milho num eufemismo sem gosto normalmente chamado de “cereais não-maltados” para baratear o custo.

A 1906 tem site próprio, o Club 1906, e pelo jeito patrocina eventos de jazz no projeto Ciclo Jazz. Obviamente nada o impede de apreciar a 1906 harmonizando com algo mais intenso, como um free-jazz europeu, por exemplo.

OBS: Não é recomendada para moças que preferem bebidas docinhas.

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Risonho e Límpido – O verdadeiro Hino Nacional Brasileiro

Há exatos 2 anos, ocorria na Assembleia Legislativa de São Paulo a mais pungente, original, comovente e verdadeira interpretação do Hino Nacional Brasileiro.

Era o Primeiro Encontro Estadual de Agentes Públicos e para interpretar o hino foi convidada ninguém menos do que Vanusa, estrela da Jovem Guarda. Ela cantaria acompanhada do músico João Bemol ao violão.

Logo na primeira estrofe ficou claro que aquela não seria mais uma burocrática e enfadonha execução do hino. Vanusa inicia lentamente, como que convidando os presentes a refletir sobre o cenário pintado com tintas parnasianas na quase indecifrável letra de Joaquim Osório Duque Estrada. Lentamente mesmo, quase se arrastando pela obra. Já era impossível ficar indiferente.

O ápice acontece quando Vanusa embaralha a letra e acaba frisando, por 2 vezes, a condição de risonho e límpido do formoso céu com a imagem do cruzeiro. João Bemol segue firme ao violão, impassível.

Ao fim da primeira parte, o público aplaude rapidamente, sugerindo o fim da execução. Falta-lhes patriotismo e sensibilidade. Vanusa não toma conhecimento da sugestão e segue em frente, entoado o Deitado em bérço esplêndido. Nesse momento, o vídeo mostra discreta demonstração de constrangimento e impaciência de um dos integrantes da mesa da Assembleia, incapaz de absorver essa releitura mais refinada do hino pátrio.

Na segunda parte, a melodia original de Francisco Manuel da Silva já está comprometida, demonstrando que o conteúdo do hino deve prevalecer sobre a forma. A velocidade da execução diminui ainda mais, até o ponto em que diminui tanto que a mesa decide fisgar a oportunidade: ao microfone, com voz grave e decidida, o locutor agradece “a presença da cantora Vanusa”. Ao fundo, ainda se ouve a cantora balbuciando “Brasil de eterno seja…”.

Brilhantismo e Desrespeito

Que fique registrado que eu achei essa a mais brilhante e realista interpretação do Hino Nacional. A despeito de qualquer medicação ou composto etílico que pudesse ter influenciado o momento, Vanusa acabou acertando na mosca ao caracterizar o Brasil no hino. Mostrou um país:

  • com dificuldade de concatenar ideias
  • apático
  • com dificuldade de articular as ideias que não consegue concatenar
  • confuso
  • indiferente
  • anestesiado
  • e, principalmente, atonal.

Esse quadro é um retrato muito mais fiel do país do que a criptografia quase insondável da letra original, escrita em um idioma arcaico que já é morto há muito tempo. Pior do que a escrita é o conteúdo, ridículo em sua grandiosidade forçada, como aliás qualquer hino nacional.

O Brasil nunca foi um colosso cujos filhos não fogem à luta e desafiam a própria morte no seio da liberdade. É um país de gente apática, oportunista, corruptível e corruptora, que adora matar o tempo na frente de reality shows na TV, que não se lembra em quem votou, não tem qualquer opinião política, não se importa em ter a liberdade de expressão ameaçada pelo governo anterior e pelo atual desde que a novela esteja garantida, e, de mais a mais, só não foge à luta se essa luta for um jogo de futebol.

Vanusa retratou esse país à perfeição, e aqui fica uma singela homenagem a este feito.

Quero registrar ainda a gesto rude e inapropriado dos integrantes da mesa da Assembleia ao interromper abruptamente a execução do Hino Nacional do Brasil. Esperava mais respeito aos símbolos pátrios por parte de legisladores eleitos pelo povo.

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Schin acerta na mosca: celebridade perfeita para anunciar uma cerveja insossa

Costumo abominar a publicidade brasileira de cerveja, fraquíssima se comparada à Stella Artois ou à Guinness, por exemplo. Mas nesse caso vou reconhecer: a Schin acertou em cheio.

A aposta da agência era clara: queriam que caísse na boca do povo. E caiu. Pelos motivos desejados: o tal contraste entre a imagem insossa recatada da cantora e a imagem da cerveja. Quando o povão começa a propagar as piadinhas sobre a “devassidão” da cantora, no melhor estilo Chuck Norris facts, estão apenas mordendo a isca.

Já eu achei que atiraram no que viram e acertaram no que não viram: a imagem da cantora tem tudo a ver com o sabor da cerveja. É a celebridade perfeita para anunciar uma cerveja sem graça.

O vídeo em que ela admite que não gosta de cerveja e prefere bebidas mais docinhas? Tenho absoluta certeza de que os publicitários já tinham conhecimento e até queriam que viesse a público. Desde quando teve alguma relevância na publicidade o fato de a celebridade conhecer ou usar o produto?

Os blogs cervejeiros responderam como esperado e saíram a ecoar a notícia feito marionetes nas mãos dos publicitários. Jornalisticamente corretos, sem muita opinião crítica. Não é bem o tom que eu dou ao assunto por aqui. Deixo o jornalismo para os portais.

Nunca fui com a cara de Devassa e Baden Baden. Das três microcervejarias compradas pela Schin, considero ambas as mais fraquinhas. Acabaram se tornando as de maior projeção. A Baden Baden domina em São Paulo e a Schin mostrou claramente que quer tornar a Devassa uma espécie de micro-popular. Melhor assim. Deixem a Eisenbahn em paz, ela é cerveja para quem gosta e procura entender do assunto. Que a massa fique com o resto.

Da mesma forma, nunca digeri bem essa cantora de laboratório, cuja vida foi orquestrada desde cedo pelos pais e que, depois de adulta, passou juntamente com o irmão a buscar a todo custo se livrar da imagem de bibelô cheio de virtudes. Pelo menos agora essa imagem foi útil.

Foram feitas uma para a outra.

E se ela prefere mesmo bebidas “docinhas”, sempre existe a Nova Schin Malzbier…

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